sábado, 4 de junho de 2011

Viagens


Era uma manhã de Agosto de 1992 de um dia que já não recordo, e eu e o João Paulo acabávamos de chegar a Madrid depois de uma noite no comboio a percorrer a distância entre as duas capitais ibéricas.
Com as malas às costas, calcorreámos as ruas à procura de um poiso limpo, seguro, central e sobretudo económico, tendo acabado os dois numa pensão a dois passos da Puerta del Sol, onde montámos o quartel-general para não deixar por ver nem um cantinho da capital castelhana. Nem o calor de Agosto, que sistematicamente nos empurrava para o ar condicionado do El Corte Inglês, nos impediu de “bater a cidade” de ponta a ponta, de museu a museu, de palácio a palácio, de igreja a igreja.
Nos anos seguintes e depois de Madrid, aterrámos juntos, e pela primeira vez em ambas as vidas, em Londres, Edimburgo, Inverness, Barcelona, Montpelier, Avignon, Viena, Praga, Budapeste, Nova Iorque, e também nos Açores.
Destas viagens trouxemos milhares de fotos, guardámos milhões de recordações e histórias, e nestas viagens tivemos sempre a certeza de estar a cumprir juntos os sonhos que partilhámos durante os anos da nossa infância na pátria calipolense.
Entre a Livraria da D. Joana Ruivo e a Loja de Tecidos, Camisas, Lãs e Capotes, do Senhor Domingos, pai do João Paulo, encontrámos os territórios de todos os sonhos, que foram sempre infinitamente maiores que a travessa entre a Corredoura e a Rua de Santo António, e o Celeiro / Armazém da Loja do Sr. Domingos, onde nos entretínhamos horas a fio com o Manuel, os Paulos e o Pedro.
Em época de Jogos Olímpicos a Travessa virava estádio e até os tubos de ferro que o Sr. Castro, latoeiro e canalizador, colocava na rua à porta do armazém, serviam de paralelas assimétricas para os nossos exercícios de ginástica desportiva.
Quando a moda era a “Visita da Cornélia”, do Celeiro fizemos o palco para com as nossas performances conquistarmos um júri que nos levasse ao estrelato. Cantávamos, representávamos, dançávamos…
Na primavera da Eurovisão, por alturas das férias da Páscoa, o Palco do Celeiro recebia o Festival da Canção, com votações por distritos e cada um de nós escondido atrás das caixas para que na hora de votar, o som abafado das nossas vozes se tornasse idêntico aos das más ligações telefónicas dos anos setenta, sempre que cada distrito dava o seu parecer quanto ao vencedor do dito festival.
Porque os livros de “Os Cinco” e “Os Sete” eram um vício e a Enid Blyton uma heroína, não desperdiçámos nenhuma oportunidade de constituir clubes de amigos para andarmos em busca de tesouros escondidos. E Vila Viçosa, com o seu Castelo, Palácio e inúmeros Conventos, bem se presta a criar a ilusão de que poderá haver um cofre mágico e rico escondido a cada esquina.
Por tudo isto, quando aterrámos em Madrid ou em qualquer uma das outras cidades do mundo, sabíamos que há muito viajámos juntos, sem avião, mas com a velocidade estonteante que só o sonho e a ilusão nos oferecem.
E quem partilha sonhos e ilusões, cria as raízes mais profundas da amizade, que nem o tempo, nem a distância, nem nada mais conseguirá jamais separar.
O João Paulo faz amanhã 46 anos e aproveitando o facto de todos sermos cidadãos e eleitores responsáveis, e nos deslocarmos a Vila Viçosa para votar, convidou-nos para um lanche em sua casa.
No mesmo espaço onde há trinta ou mais anos nos sentávamos para jantar em dia de aniversário, viveremos a saudade do Sr. Domingos que há muito partiu, e teremos presente na lembrança os que nunca faltavam ao repasto: o Padre José Luís Francisco que foi pároco e sobretudo nosso mestre na arte de saber ser exigentes connosco próprios, e a nossa eterna catequista Bárbara Elisa que com a sua doçura e afabilidade superiores, nos ensinou sempre que ser Homens de fé, é ser Homens positivos, alegres, Homens que expressam a cada olhar, mais do que tudo, a alegria da Ressurreição.
Todos os que estivermos na festa, com mais cabelos brancos, mais barrigas, mais rugas, mais ou menos desilusões na mochila da vida, sentiremos por certo o conforto da verdadeira amizade e sentiremos que jamais partimos ou partiremos deste espaço de sonhos que nos entrelaçou definitivamente e fez de nós os melhores companheiros nessa longa e por vezes difícil viagem que é a vida.

1 comentário:

  1. Foi muito bom este encontro que o João Paulo nos proporcionou! Foi uma tarde bem passada, na companhia daqueles que estarão sempre ligados a nós, porque a amizade é mesmo assim!

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