sábado, 18 de junho de 2011

O primeiro Governo da minha geração

Quando o novo governo tomar posse na próxima terça-feira, a média etária dos seus ministros cifrar-se-á nos 47 anos, apenas mais dois do que os meus quase 45.
Sinto pela primeira vez e de forma clara, que a minha geração chegou ao poder em Portugal, e, confesso-vos, tenho esperança que possa ser ela o motor que puxe o país para a frente, retirando-o da enorme crise, política, social e sobretudo financeira em que se encontra.
Não alimento esta esperança por mera solidariedade e filiação geracional, faço-o sobretudo com base do reconhecimento do tempo maior em que tivemos o privilégio de crescer e fazer-nos Homens.
À geração anterior à nossa devemos a gratidão eterna da conquista da liberdade que nos permitiu viver a segunda década das nossas vidas, os nossos tempos de liceu e entrada nas universidades, sem tabus, com visões alargadas, sem medos de pensar e agir diferente. Aprendemos línguas, começámos a viajar mais, vimos filmes e lemos os livros sem os cortes da censura, exercitámos sem castigo o confronto das ideias, ninguém nos oprimiu para que tivéssemos de deixar de ser nós.
Fizemos grande parte do nosso percurso académico como membros de pleno direito da Comunidade e depois União Europeia, com acesso a estágios e programas de formação que até então não existiam e que tornaram de repente as nossas universidades mais modernas.
Crescemos, tornámo-nos adultos ainda a tempo de celebrar a queda do Muro de Berlim, a libertação de Mandela e o fim do Apartheid, e com a consciência do valor da liberdade, solidarizámo-nos com os jovens estudantes Chineses quando a reclamaram em Tianamen.
Mais tarde chegou a Internet e as novas formas de comunicar e tudo se tornou mais fácil. O mundo ficou mais pequeno, na inversa proporção da nossa possibilidade de acesso à informação.
Mas não pensem que tudo era fácil.
A maioria das famílias não tinha grande desafogo económico e vivíamos um tempo pré era dos subsídios, em que a muitos de nós se exigia que trabalhássemos enquanto estudávamos, fazendo sempre os nossos cursos com essa perspectiva de o mais rapidamente possível poder trabalhar e ganhar com isso a autonomia financeira.
Por estas razões, pela força da liberdade, o acesso à informação, a comunicação, a superior formação e o reconhecimento do valor do trabalho, sinto que fomos privilegiados no tempo que vivemos e em que nos foi oferecida a capacidade de desenvolver em nós, tudo o que ao país faz falta para poder avançar: conhecimentos técnicos e consciência social.
Um político profissional daqueles a quem não se conhece outra profissão que não a política, afirmou há pouco na televisão que a falta de perfil político nestes ministros será um grande risco para o país.
Não sei qual a definição que ele me daria para “perfil político”, mas se ela coincidir com o perfil dos muitos de todos os partidos que nos trouxeram até aqui ao momento que vivemos, devo dizer que ele está redondamente enganado. Os políticos tribunos da mentira, os “self-made men” dos telepontos e da argúcia no esgrimir de argumentos, mas vazios de conteúdo, coerência e obra, não farão falta absolutamente nenhuma.

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