domingo, 12 de junho de 2011

Viagem ao interior da Terra ou… a outra face do Ouro Branco

Na revista “Notícias Sábado” que acompanhou o “Diário de Notícias” de ontem, vem publicada uma muito interessante reportagem, denominada “A Pedreira”, que mais não é do que um relato de uma visita às pedreiras de mármore de Vila Viçosa.
São histórias contadas por palavras e imagens que carregam a verdade que nós Calipolenses conhecemos melhor do que ninguém, de como é duro o dia-a-dia no interior da terra em busca da valiosa pedra, há muito apelidada de Ouro Branco.
Quando se contar a história de Vila Viçosa nas últimas décadas do século XX, teremos de colocar o mármore no centro da nossa narrativa, tal a influência que as actividades associadas à sua extracção e transformação tiveram na nossa terra, substituindo a agricultura que até aí ocupava um claro lugar de destaque.
Desde logo, mudou a paisagem, e se antes chegávamos a Vila Viçosa por estradas ladeadas por alvos muros caiados que delimitavam olivais e quintas, hoje, se chegarmos de Borba, Bencatel ou do Alandroal, verificamos que o verde das árvores foi substituído pelo branco da pedra, do seu pó e dos seus resíduos, com o recorte do horizonte a ser feito pelos gigantescos guindastes e pórticos onde as diversas empresas orgulhosamente colocam as suas designações comerciais. Só a estrada de S. Romão conserva o seu aspecto de outros tempos.
A paisagem humana também mudou consideravelmente. Os “senhores da terra”, até então invariavelmente os latifundiários, viram o seu poder ser deslocado para uma classe emergente de industriais do mármore empenhados em comemorar o seu poder recente com a construção de sumptuosas casas e a aquisição de bólides com super potência. Vila Viçosa passou a ser uma terra de “novos ricos” mas também de “novos pobres”, com as famílias mais tradicionais do império agrícola, sobretudo as que não foram a tempo de fazer a sua “revolução industrial”, a tentarem camuflar os sinais do seu declínio.
O desemprego no concelho foi a níveis baixíssimos e dá-se uma explosão do poder de compra e a consequente mudança de comportamentos e hábitos. É o tempo em que “explode” a Quinta Augusta como local de construção de habitações próprias, com a maioria das pessoas a deixar as casas alugadas em que até aí viviam no centro da Vila, casas que foram sucessivamente ficando vazias e a deteriorarem-se com o tempo, a falta de uso e sobretudo de cuidados.
As pedreiras e a exploração do mármore marcam também de tragédia a vida de muitas famílias Calipolenses. Numa altura em que a segurança no trabalho e a prevenção de acidentes laborais era bastante rudimentar, poucas pessoas poderão afirmar não ter um familiar morto ou marcado irreversivelmente por algum episódio menos feliz ocorrido nas pedreiras ou nas serrações de mármore. Vivendo eu então na Rua do Hospital, tenho dificuldade em recordar-me se alguma semana existiu sem que eu assistisse à chegada de um ferido mais ou menos grave.
O poder político, que vive de braço dado com o poder económico e que inevitavelmente e sistematicamente a ele se rende, passa a girar também em redor da nova actividade, com os novos fazedores de opinião a saírem agora das empresas ligadas ao mármore, relegando os “velhos senhores da agricultura” para funções mais ou menos decorativas pois o que apenas têm agora para oferecer é nome e estatuto.
Sobretudo nos anos oitenta e noventa, “cheira-se” muito dinheiro a circular, e as novas gerações, os nascidos dos pais empreendedores do mármore, salvo algumas excepções que sempre existem, são em geral criados no facilitismo e na abundância, não desenvolvendo hábitos de trabalho e centrando o seu estatuto mais no ter que no ser, o que é péssimo quando chega a crise e o ter se esvai como grãos de areia entre os dedos, fazendo com que daí à frustração e à depressão vá um passo demasiado curto.
Com os ovos todos metidos no mesmo cesto, com o concelho totalmente cativo do mármore, se um dia ocorre um acidente, se a crise mundial nos ataca por todos os lados, os ovos partem-se todos, e o concelho fica sem salvaguarda.
La Fontaine há muito que falou de cigarras e formigas, mas mesmo assim em Vila Viçosa todos nos esquecemos que um dia iria chegar o “inverno”.
Quanto a mim, só me resta dizer-vos que uma reportagem interessante e um fim-de-semana super prolongado, são extraordinários para nos fazer pensar e recordar.

1 comentário:

  1. Ah, pois é!
    Ainda ontem comentava com alguém que há muitas empresas de mármores a fechar as portas e a deixar muitos calipolenses e outros habitantes do concelho sem trabalho! Fruto da crise, mas não só! Mais uma vez, e à semelhança dos nossos políticos, também de má gestão!

    ResponderEliminar