sexta-feira, 24 de junho de 2011

Museu do Côa


Só as oliveiras e as amendoeiras, que insistem em entrecortar a verde o imenso mar de bege e castanho que parece irradiar fogo neste dia de canícula, nos acompanham pela estrada fora quando procuramos que cada curva nos revele a anunciada grandiosidade do museu.
Não fossem as placas de estacionamento e jamais julgaríamos ter chegado.
Está desde logo conseguido o primeiro dos critérios para ser grande: ser simples.
Umas escadas íngremes convidam-nos a ir fundo numa gigantesca estrutura de linhas direitas que sendo enorme é igual a tudo o que a rodeia, permitindo que só o rio no seu correr azul continue a ser o elemento que se destaca quando olhamos em redor.
Segunda virtude: discrição.
E depois, percorrendo as sucessivas salas imensas pintadas de negro, entramos na vertigem do tempo para chegarmos às linhas que marcaram a pedra do paleolítico até hoje.
Não sabemos se o que é actualmente oferecido aos nossos olhos foi em outro tempo comunicação, arte, entretém ou religião. Pode até ter sido tudo ou não ser nada.
A nossa imaginação compõe o enquadramento, como o faz sempre que olhamos para a História.
O que importa é a emoção pelo privilégio de estarmos aqui a olhar de frente os desenhos perpetuados na pedra, feitos pelas mãos de Homens que viveram há tanto que temos dificuldade em identificar qual o ponto na longa estrada do tempo.
Terceira virtude conseguida, e por certo a mais importante: eficácia na viagem pelo tempo.
E no final saímos felizes, mais completos e orgulhosos por termos sabido resistir à submersão da memória que o avanço das tecnologias nos convidava a fazer.
Um povo que afoga a sua História é um povo que mata a sua identidade no futuro.
Vale do Côa. Vale a viagem.

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