quinta-feira, 6 de março de 2014

No tempo da “Cassete - Pirata”

Quando terminei a 4ª classe em Junho de 1976 depois de uma prova final imaculada, um daqueles exames à antiga em que íamos todos aprumados e com a roupa “de ir ver a Deus” porque havia uma componente oral e uma escrita em que, com a ajuda de umas fantásticas Canetas de Tinta Permanente provávamos as virtudes da nossa excelente caligrafia em folhas de papel almaço dobradas na margem para as correcções e as classificações; nesse tempo em que este “Ensino” não era “Básico” mas “Primário” e os “Auxiliares de Acção Educativa” ainda se chamavam “Contínuos”… o meu avô Chico ofereceu-me como recompensa um leitor / gravador de cassetes da marca Philips.
Com a dupla opção de poder funcionar ligado à corrente eléctrica ou a pilhas, a sua portabilidade era também garantida pelo tamanho relativamente pequeno e por uma asa metálica colocada junto aos botões devidamente alinhados e de cor branca e vermelha que permitiam concretizar todas as funções do aparelho: tocar, transportar a fita para a frente, fazer recuar a fita, gravar e controlar o volume.
A gravação das cassetes “virgens”, ou então de algumas previamente utilizadas mas que tinham música que já não nos interessava para nada, era assegurada com a ajuda de um pequeno microfone que estava ligado a um fio que por sua vez se conectava a um orifício próprio que existia na parte lateral do aparelho.
Desde o dia em que essa oferta se concretizou jamais alguém em minha casa conseguiu ver um Festival RTP da Canção ou um Festival da Eurovisão, de uma qualquer outra forma que não fosse em silêncio, pois o pequeno microfone era colocado estrategicamente junto à saída de som do televisor e as canções ficavam desde logo registadas na fita da cassete, postas então à mercê das apreciações que eu e os meus amigos faríamos no dia seguinte, à mistura por certo com algum som extra de “bateria” derivado do ruído dos tachos ou da louça, uma vez que a minha mãe não se podia privar de concretizar as lides domésticas do nosso serão familiar.
Estas gravações eram também o suporte para interpretações que nós próprios fazíamos nas tardes passadas a brincar entre caixas de cartão no Celeiro do Sr. Domingos, o espaço contíguo à sua loja de tecidos e de capotes Alentejanos que tinha na Corredora; em Festivais made in Vila Viçosa que tinham até chamadas de votação aos diferentes distritos: nunca mais me esquecerei que em Viana do castelo há um jornal chamado “Aurora do Lima” e em Castelo Branco, “A Reconquista”.
Em época de Festivais, uma colega questionou-me sobre o segredo de saber tanto sobre o tema e me recordar de muitas canções e intérpretes de quem mais ninguém se lembra.
Obviamente que a memória ajuda e também o gosto de ser “Eurofã”, que assim se chama pela Europa fora a quem nutre simpatia sobre o assunto; mas o maior segredo reside nestes auxiliares de memória gravados ao serão, ao vivo e… a preto e branco, que cor na televisão em Portugal é coisa só de 7 de Março de 1980, noite de Festival apresentado pelo Eládio Clímaco e pela Ana Zanatti directamente do Teatro S. Luís, em Lisboa; depois de nas eliminatórias, uma cantora de nome Zélia Lopes ter cantado “Nada a perder” (“Vou viver a minha vida / tal e qual eu entender / sou maior e vacinada / não tenho nada a perder”) naquilo que poderemos chamar a “Pré-história da Música Pimba”.
Faz amanhã precisamente 34 anos e… ganhou o José Cid com “Um grande, grande amor”, canção que depois alcançou um sétimo lugar em Haia no Concurso da Eurovisão ganho por Johnny Logan, da Irlanda, festival em que o Luxemburgo se apresentou em palco com um homem disfarçado de pinguim e…
O gravador ainda funciona e conservo na gaveta algumas destas cassetes que ouvidas agora e com a “elevadíssima” qualidade que apresentam, quase nos levam a acreditar que os Festivais eram todos realizados sobre o tabuleiro metálico da Ponte 25 de Abril em dia de buzinão ou de concentração de camiões.
Está revelado o segredo dos meus auxiliares de memória em versão áudio, cassetes que ainda visito de vez em quando no Panteão das doces memórias para onde foram depois de assassinados pelo Youtube.
Só que o Youtube não tem o som das panelas e dos tachos lá de casa, e o tempo faz com que até dessas coisas tenhamos saudades. 

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