quarta-feira, 5 de março de 2014

O fermento e as cinzas

Se esta vida são dois dias, vantagem inequívoca para o Carnaval que são três com muito mais animação, ainda que esta resulte quase sempre do benefício e do alto patrocínio da ilusão.
Como se a vida não estivesse ela própria totalmente à mercê da ilusão, e não fossem maiores e perfeitamente irresistíveis, esses momentos em que auto-suspendemos a “enfatuada” e bacoca racionalidade para nos entregamos sem limite àquilo que queremos muito, e que por tanto querermos, adquire um onírico estatuto?
A vida toda suspensa pelo prazer de um momento na vertigem irreflectida do “sim” a um amor; na emoção indescritível de um beijo; no desejo escondido num secreto abraço; no silêncio que grita e transpira paixão; na mão trémula e suada que por um gesto de entrega, fala de amor; no olhar que nos denuncia e nos faz pertença do outro; na mensagem que convoca todas as palavras tontas só para falar de amor; no coração traçado a canivete no tronco de uma árvore do jardim; na poesia declamada à luz ténue do luar e ao ritmo arrastado das ondas do mar; no simples malmequer roubado ao campo; no vaguear sem rumo com o pensamento entretido em coisas bem mais importantes do que saber para onde vamos…
Consequências?
O ciclo do tempo impõe hoje o fecho da folia, o pendurar de todas as máscaras, o desligar das luzes, o jejum e a abstinência do riso, da cor e da música.
É Quaresma, e esta Quarta-feira tem apelido de cinzas e fala-nos do pó como o nosso inevitável destino ao cruzarmos a soleira da também mais do que inevitável morte.
Na vida, quem não sentiu já o gosto amargo e a dor das cinzas no regresso à fria racionalidade, no rescaldo e na ressaca de um momento da mais pura ilusão?
Quem não chorou já a saudade de um perfeito e às vezes tão demasiado fugaz momento de amor?
De aqui a quarenta dias, os sinos repicarão e voltarão a falar de festa, haverá mais flores coloridas a “temperar” o intenso viço dos campos, o sol brilhará intensamente, será primavera e o tempo parecerá cantar “Aleluia” na ressurreição de Deus ou então da própria vida; distinção impossível de realizar para os Homens que têm fé.
Não há Quaresma que não conduza às “Aleluias”.
Também a dor da morte de um grande amor é condição essencial para que um outro muito maior possa chegar fazendo drenar o primeiro para o sepulcro da nossa História.
Afinal, não há cinzas do luto de uma ilusão que não possam ser na vida fermento de uma nova esperança.
Assim nós nos deixemos ir pelo ciclo do tempo...
Acreditando.

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