quinta-feira, 13 de março de 2014

Os dias tristes sem as flores

O meu amigo António disse-me hoje pela manhã que em Trás-os-Montes e por estes dias de um sol de quase primavera, as flores das amendoeiras já estão de partida.
O esplendor branco e rosa que enfeitou as árvores, despede-se agora beijando despudoradamente a terra e oferecendo aos nossos pés um alvo e inédito tapete, o manto que por terras do sul bem se ajusta às lendas e às saudades da neve de uma Princesa Moura.
Mesmo racionalmente sabendo que num destes dias chegará o fruto e que esta despedida cumpre o inevitável ciclo da vida, jamais deixaremos de sentir saudades dos dias mágicos das flores.
É normal.
De forma mais ou menos marcada, todos nós carregamos na alma as virtudes e a sensibilidade de um poeta.
E um poeta sempre se condói na hora de dizer adeus às flores, mesmo quando elas são assim brevíssimos detalhes do tempo e carregam em si mesmas, um intenso sabor a lendas e gosto de ilusão.
Mesmo sabendo que as flores acabam sempre por voltar.
Também por estes dias têm estado bem presentes em mim aquela amiga que se fortalece na cama do hospital para lutar contra um estúpido tumor, e também aquela outra muito mais nova que aguarda ansiosa a hora de um transplante que lhe devolva os dias com melhor respirar…
“Impõe-me” a fé e a amizade que as lembre todos os dias naquele Padre-nosso e nas Ave-Marias que quase sempre o cansaço já não me deixa terminar na hora em que adormeço.
As duas, lindas como as pétalas das amendoeiras, seguiram a rota das flores e saíram por momentos das janelas desses olhares de onde sempre me sorriem, tão-só para que pela sua dor me ofereçam o fruto benefício de um exemplo e uma lição de coragem e infinita bravura.
“Impõe-me” também a fé acreditar que passados estes dias, ambas em breve voltarão a abrir sorrisos nos olhares depois de as suas dores me terem ensinado a ser um pouco melhor... e maior.
Deus ou ciclo do tempo jamais nos levam os dias das flores.
Mesmo que a espera por vezes aparente ser o infinito e mesmo que haja sobre a dor, lágrimas impostas pela nossa assumida alma de poetas; esses dias acabam sempre por voltar.
A saúde voltará em breve minhas queridas, doces e inesquecíveis amigas.
É que se o Céu precisa de anjos, o que seria de nós se eles não continuassem também por aqui a alegrar-nos os dias, a sorrir-nos generosos desde as varandas lindas de uns tão perfeitos olhares. 

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