segunda-feira, 3 de março de 2014

“Olhai os lírios do campo”

Junto à varanda da nossa casa de Vila Viçosa há um cipreste que serve de poiso a uma importante família de pardais. Numa fantástica relação de vizinhos, eles acordam-nos chilreando pelas manhãs e nós nunca deixamos de lhes oferecer comida.
Já conhecem as horas das nossas refeições e nem sequer fogem de nós quando lhes sacudimos as toalhas e “semeamos” migalhas pelo chão da varanda.
A manhã por aqui dispensa pois os despertadores e “palpa-se” despudoradamente pelo canto dos pássaros, pela luz que irrompe pela janela e também pelo relógio da torre do Paço que a partir das sete começa a não falhar quaisquer horas, meias e quartos.
Sem relógios, o tempo parece que se torna muito mais nosso, naquele que é um dos maiores segredos e virtudes do campo.
E sacro é também este tempo assinalado pelos campanários, generosidade dos mesmos sinos que convidam às Ave-Marias nas Trindades, e que um dia farão soar a nossa morte pelos recantos da longa planície, este espaço temperado de oliveiras e sobreiros, os maiores horizontes que serão para sempre a nossa casa.  
O despertar completa-se mais tarde com o café tomado na Pastelaria da esquina, uma bica temperada de uma conversa sobre tudo ou quase nada, sem mesmo que a tivéssemos combinado com os amigos, pois todos os que poderão estar por ali sentados são vizinhos de sempre e há muito são amigos com quem temos partilhado os nossos dias no que têm de melhor e… menos bom.
Há afectos ao redor da bica e também dos nossos passos entregues às ruas que conhecemos de cor nas pedras da calçada e dos passeios, na tonalidade garrida do rodapé das fachadas invariavelmente brancas de cal, e também nos rostos da gente que dão nome e história a todas as casas e a todos os recantos.
Afectos e aromas das flores, da erva e da terra molhada.
Vão directamente para a alma os “bons dias” que são soletrados pelos sorrisos que rasgam o silêncio onde ecoam os nossos passos e onde emerge o insistente correr das fontes que o inverno ressuscitou; o silêncio onde “brilham” as memórias de um tempo em que por termos sido tão felizes, trataremos sempre por nosso.
São de Entrudo estes dias que o Alentejo celebra sem máscaras no camuflar dos sonhos, e com filhós à mesa do aconchego da braseira, perfeita compensação para a aragem fria que insiste em recordar-nos que este é um inverno demasiado rigoroso.
E a filhós chama os amigos e a conversa…
Vila Viçosa. Aqui nunca estarei só.
De simplicidade se enche a nobreza destes dias divinos no campo, que tão pequena e vã é qualquer outra “grandeza” exposta nos altares da vaidade dos Homens. 

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