terça-feira, 11 de março de 2014

“Barriga cheia não acredita em fome alheia”

No dia em que recebi pelo correio um sobrescrito com alguns cupões de desconto em cartão para compras nos Hipermercados Continente, o patrão da SONAE, grupo detentor dessa cadeia de lojas, e personalidade com direito a nome na FORBES na lista das pessoas mais ricas do mundo, defendeu a legitimidade para os baixos salários em Portugal, tão-só porque eu e os meus e seus concidadãos, somos afinal “malandros” e não produzimos tanto quanto os Alemães, uma atitude supra-patriótica capaz de fazer muito pela economia nacional e atrair investidores, uma atitude “generosa” a justificar no fundo aquela ideia de que “com amigos assim, para quê ter inimigos”?
Mas de repente, e perante esta inevitabilidade da minha pobreza, os cupões fizeram lembrar-me as senhas das Conferências Vicentinas que permitiam receber o pão dos pobres; e o cartão de fidelidade à marca Continente que tenho na carteira passou simplesmente a ser um adereço de acesso à caridade do seu iluminado e endeusado patrão através de um processo certificado e com recurso a banda magnética.
E confesso que já não suporto ouvir os ricos a opinar e a falar da legitimidade da pobreza dos outros…
A senhora do Banco Alimentar que pode comer bifes todos os dias e que é heroína da generosidade por mérito dos sacos cheios de comida e da solidariedade que eu lhe despejo nos carrinhos de supermercado, fala de cátedra sobre a impossibilidade dos outros poderem ambicionar a comer o que quiserem.
O banqueiro presidente da instituição onde tenho as minhas contas e que alimenta as suas através das infinitas taxas bancárias que me “sorve”, vem dizer que o povo ainda aguenta mais austeridade, mesmo havendo gente que se depara já com gravíssimas dificuldades para sobreviver.
O empresário que detém a rede telefónica do meu telemóvel e que é dono destes supermercados onde faço grande parte das minhas compras, e onde deixo grande parte do meu ordenado ao pagar a comida para a satisfação das minhas necessidades mais básicas, chama-me “malandro” e diz que não posso ambicionar a mais ordenado.
Tudo se assemelha ao sádico prazer do conforto de estar com os pés bem firmes na terra, e não dispensar o atar de uma pedra aos pés dos que se afogam, quiçá para que desapareçam mais depressa.
E Portugal é hoje assim definitivamente uma terra onde impera o pecado da soberba lado a lado com o da hipocrisia, esta última expressa pela imbecil dicotomia e bipolaridade entre o parecer e o ser: políticos incompetentes a apontar a incompetência e a irresponsabilidade dos outros; descarados e perversos travestidos de moralistas e a vender avulso e barato, a moralidade aos outros; pretensos defensores dos pobrezinhos a banquetearem-se descaradamente com os prazeres do fausto e da riqueza, etc.
Sem pudor e sobretudo sem a manifesta vontade de alterar este ciclo e o seu ritmo que tanto convêm a quem está bem e confortavelmente sentado no paraíso.
A crise de muitos é a passadeira vermelha para o sucesso e conforto de poucos, sendo que o poder desses poucos é infinitamente maior que o dos muitos que agonizam “surfando” pela crise.
O poder dos Euros é muito superior ao poder da dor de qualquer Homem.
E se o povo diz que “barriga cheia não acredita em fome alheia”, acrescento eu que também não as respeita nunca.
Voltando à SONAE e relativamente aos cupões e ao cartão, talvez os utilize quando tiver mesmo que ser, até porque o respeito pelos patrões das outras lojas também não é lá grande coisa, mas descanse o senhor em causa porque nunca farei qualquer escândalo nos seus hipermercados. Afinal, os meus interlocutores por lá, seus funcionários e nossos concidadãos, merecem a minha total solidariedade pois para além de terem um ordenado baixo e de serem alcunhados de malandros pelo seu chefe mor, têm uma enormíssima desvantagem em relação a mim: têm um patrão sem vergonha. 

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