sexta-feira, 7 de março de 2014

Senhora D. Liberdade

Quando cheguei a Lisboa em 1984 vindo de Vila Viçosa, a Liberdade tinha dez anos e veio comigo.
Com os meus dezoito anos de então, esta espécie de irmã mais nova tornou-se muito próxima de mim, de tal forma que fomos os dois crescendo e fortalecendo simultaneamente a nossa relação de família por via da tolerância, do respeito pelo Homem e pelas diferenças que lhes são inerentes, por via do livre pensamento, pela força e união no derrubar das desigualdades, das injustiças, etc.
Passeávamos juntos no Bairro Alto e de vez em quando tomávamos um copo de tolerância em algum dos muitos bares que iam abrindo por ali; íamos juntos ao Quarteto ver os filmes na ausência total de censura política ou de mercado; apanhávamos o mesmo autocarro para ir comprar livros do Saramago, do Cardoso Pires, do Garcia Marquez, do Vargas Llosa… à Barata, à Buchholz e a tantas outras livrarias da cidade; fomos ouvir a mesma música ao coliseu, ao Pavilhão dos Desportos, à Reitoria da Universidade de Lisboa ou à Fundação Gulbenkian; frequentávamos os debates na Aula Magna do ISCTE em vésperas de eleições e transportávamos as discussões para a mesa das cantinas universitárias onde não existiam praxes e o menu tinha sempre a conversa e a Liberdade…
E fomos crescendo juntos.
Um certo dia e ainda nova qual Lolita, a Liberdade resolveu tornar-se amante da Europa. Ao invés de um matrimónio de papel passado e igualdade garantida, esta situação que nem União de Facto conseguiu ser, traduziu-se por casa montada, cartão de crédito, luxo, auto-estradas, rotundas, muito dinheiro e facilidades.
Ao sol do Algarve e da Caparica, a Liberdade vendeu a sua alma ao mais vil diabo e passou a ser uma “Teúda e Manteúda” ao dispor dos senhores do dinheiro, uma nova-rica de vida demasiado fácil para tão nobre berço e herança genética.
Foram passando os anos e a Liberdade foi envelhecendo e deixando de ser tão apelativa para a amante Europa, muito mais virada agora para a “carne fresca” que foi surgindo a leste.
Eu fui acompanhando sempre esta minha irmã, mas a partir de certa altura com um afastamento que me doeu muito mais a mim do que a ela, estou certo disso.
Hoje eu tenho quase 48 anos e ela está prestes a cumprir os 40. Temo-nos visto pouco mas sempre que a encontro vou notando a sua transformação e registando que não está a amadurecer bem. São demasiado evidentes os sinais de um envelhecimento doloroso.
A pouco e pouco foi transformando a sua beleza natural: colocou madeixas e nuances de corrupção ao estilo BPN; pôs na boca a mordaça do aparelho metálico dos Mercados que lhe alinha os dentes (e as contas) mas “dói para caraças”; quis tornar-se importante pela via mais fácil e conseguiu uma licenciatura sem aprender nada por via das “Novas Oportunidades”; trocou as ideias por uma fácil e muito desinteressante conversa cheia de calão ao estilo do “porreiro pá”; interesseira, perversa e madrasta, abandonou todos os “filhos” que a vida lhe foi dando e fê-los partir seguindo as mesmas vias dolorosas que os seus próprios pais já tinham utilizado nos anos sessenta muito antes de ela ter visto a luz do dia…
Esquecida pela Europa, abre agora as portas da sua casa a Chineses, Angolanos e outros, sobrevivendo à custa da venda dos seus bens mais preciosos, aquela nobre herança que a faz aquilo que realmente é, a Liberdade.
Por estes dias, até a avenida que tem o seu nome, já carrega em si tão pouco de Liberdade.
Está irreconhecível a minha irmã.
Mas, na expressão de um claro apego de alma e de sangue, juro-vos que jamais desistirei dela, e levem para onde levem a “minha” Liberdade, e pode ser até para os antípodas da sua essência; eu irei sempre lá para a resgatar e a devolver a si mesma.
Porque eu sei que vou morrer cumprindo a minha condição humana, mas ela é eterna.
A nossa eterna Liberdade.
Lisboa, 6 de Março de 2014. Não consigo jantar e escrevo enquanto assisto a uma manifestação de polícias em frente ao parlamento.

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