quinta-feira, 14 de março de 2013

Francisco

Em perfeito contraste com os últimos dias, há hoje um sol intenso a brilhar sobre Lisboa, no momento em que o avião descola da Portela e a progressiva conquista da altitude me revela aos poucos esse privilégio do Tejo pintado de um intenso tom de azul.

Vislumbro a lezíria e sei que daqui a pouco, a rota para Munique em escala para Viena, me oferecerá a Beira Baixa, palete de infinitos verdes salpicada de aldeias, monumentos de granito nascidos da mão dos Homens, perfeitas guardiãs dos melhores e mais verdadeiros segredos da nossa história.

Não temo andar de avião, mas rezo sempre que descolo de algum aeroporto.

Não o faço portanto por medo, faço-o por hábito, e questionando-me sobre o porquê da preservação deste hábito, talvez a visão da terra vista no privilégio da perspectiva de um pássaro que voa, e hoje, do Tejo, da Lezíria e da Beira, seja um convite a que eu, crente em Deus, o louve pela magnifica obra da criação.

E invariavelmente rezo como sempre me ensinaram: um Pai Nosso e uma Avé Maria.

Ontem, entre o SMS do Ricardo que me alertou para o Habemus Papam e o aparecimento do Papa Francisco à janela de S. Pedro, durante aproximadamente uma hora, alimentei alguma expectativa sobre o perfil do sucessor de Bento XVI.

E o novo Papa, que surgiu num misto de timidez e alguma descontracção tão típica da terra do tango, causou em mim desde logo uma boa impressão quando me apercebi de que reza como eu: um Pai Nosso e uma Avé Maria.

Ele do alto da varanda mais nobre da Praça mais famosa de Roma, da mesma forma que eu, algures nos aeroportos do mundo.

A simplicidade que se precisa e que é afinal marca da fé.

Desculpar-me-ão o exagero da comparação, mas pelo ar de simplicidade consigo imaginar-me confortável a falar com ele à mesa de um café, algo que jamais sentiria com o Papa Ratzinger.

Quando de seguida pede a benção dos crentes antes de lhes dar a sua benção, e se inclina ele perante o povo que reza, faz-me acreditar que marcará o seu pontificado não pela força e imposição das suas convicções, mas sobretudo pelo atento escutar do clamor do povo crente.

É assim de um líder e não de um chefe, que a Igreja precisa.

Apreciei a escolha do nome Francisco. Para além de ser um dos meus nomes, terá sempre a marca do desprendimento e simplicidade de Francisco de Assis e a "arte" missionária de Francisco Xavier.

E assim, na noite chuvosa de Roma sopraram ares de renovação que importa agora ver concretizados.

E porque saber rir é uma arte e o humor uma benção de Deus, não posso deixar de vos referir que o meu avô Francisco, avô paterno que me deu o nome, tinha em Vila Viçosa a alcunha de Padre Santo. A partir de ontem, 104 anos e alguns meses depois do seu nascimento, um Santo Padre de nome Francisco veio dar mais legitimidade à dita alcunha.
O avô Chico já partiu há 23 anos mas onde estiver já se riu muito à conta desta coincidência. E eu, agora algures entre Madrid e Toulose, segundo informação do piloto da Lufthansa, riu-me também com ele.

1 comentário: