sexta-feira, 1 de março de 2013

Olhar o céu


Um helicóptero branco rasga os céus de Roma, transportando um Papa que o deixa de ser, por certo, por inspiração divina, mas objectiva e racionalmente, por expressão da sua própria vontade.
Estranha a imagem da cúpula de São Pedro em momento de “Sede Vacante” no adeus a um Papa que não morre, apenas voa neste visível e humano “céu” por cima das nossas cabeças.
Fala-se de renovação e alimenta-se a esperança.
De facto, não é necessário morrer para mudar o curso da história. Basta querer, basta voar, e a esperança acontece…
É a tarde do último dia de Fevereiro e quis a sorte que o meu olhar se entregasse ao perfeito céu da cor mágica e infinitamente branca de Lisboa. Subo a rua de São Bento e o céu é meu, mesmo sem o desenhado voo da “Gaivota” cantada por O’Neill.
E entre mim e o céu, há rubras sardinheiras nas janelas de Amália e um pouco mais abaixo, numa casa forrada a azulejos azuis, há uma amor-perfeito em tons de amarelo que, em jeito de desafio, me espreita debruçado do ferro forjado de uma varanda.
O céu não existe apenas para que possamos voar…
Contemplando o infinito na legitima ambição de quem segue os sonhos, será por certo de amor que se nos marca o fado nesta festa de existir.
O céu era maior quando após o almoço me deitava de costas sobre as ervas, por esses dias na companhia dos malmequeres, das papoilas, do rosmaninho, da giesta, da esteva e da imponência das dedaleiras, sempre que acompanhava a minha avó ao campo, no Vale da Rabaça, no Carapiteiro ou na Fonte Cebola, para que num ribeiro de águas límpidas e correntes, entre o lavar, o corar e o secar, ela nos trouxesse para o sono todos os aromas perfeitos nascidos da terra e por bênção do céu.
O céu era maior porque tudo é maior quando contemplado por um olhar de criança.
E desde ali, a olhar o céu, viesse alguém e me falasse de impossíveis…
Hoje começa Março, e desde aqui e até à primavera, há apenas a distância de um brevíssimo momento.
Avancemos então ambiciosos para a primavera, a voar ou… pelo menos, ao jeito de quem olha o céu e segue os sonhos.

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