terça-feira, 26 de março de 2013

Os cinco e o São João Evangelista


No tempo em que os andores só andavam aos ombros dos homens, e estes, mais do que em procissões, andavam maioritariamente entretidos pelo Alentejo em múltiplas actividades revolucionárias de natureza laica, cedo nos recrutou o saudoso Sr. Domingos para que nos eventos da Semana Santa, nos encarregássemos, eu e os meus quatro amigos, de transportar o andor de São João Evangelista.
Bastou termos dado aquele avanço na altura que as mães designam por “pulinho” e aí fomos nós, de voz grossa e buço a rebentar por entre o acne, de amêndoas de açúcar nos bolsos, a carregar o andor nas procissões de Terça-feira Santa, devidamente coberto por um pano negro no breve trajecto entre a Igreja de São Bartolomeu e a Igreja de Nossa Senhora, e de Sexta-feira Santa, então descoberto e enfeitado por fúnebres palmitos, na procissão do enterro do Senhor.
Eu, o João Paulo, o Manuel, o Paulo Geadas e o Paulo Quinteiro, inseparáveis, acrescentávamos assim uma actividade nocturna aos dias das férias da Páscoa que compartíamos no celeiro da loja do Sr. Domingos, pai do João Paulo, a jogar ao Monopólio, ao King, ao Cluedo, etc.
E sendo a imagem de São João Evangelista, a mais mártir das imagens processionais do universo Calipolense, vitima de uma decapitação nas grades da Igreja da Esperança, e anos mais tarde, de uma brutal queda em plena Rua da Freira; jamais o nosso quinteto deixou de ser eficaz e seguro na manutenção da compostura exigida por tão solenes eventos da Semana Santa.
É um facto que praguejávamos contra o andar desengonçado do Manuel no seu peculiar jeito de pôr os pés para dentro, ou contra a “arte” de alguns que se agachavam fazendo com que o peso se repartisse apenas pelos outros três; mas jamais deixámos, o quarteto efectivo e o elemento suplente que dava assistência aos demais e ia rodando entre todos, de cumprir o nosso papel. E na história do “transporte” do São João Evangelista, pelo sucesso, poderemos ser considerados uns verdadeiros “Mourinhos do Andor”.
Não é definitivamente pela força das memórias desta minha ligação à sua imagem, que tenho uma particular devoção por São João Evangelista: admiro a forma como se refere a si próprio como “aquele que Jesus amava”, era o mais novo dos apóstolos, acompanhou Jesus até ao momento da sua crucificação sendo simultaneamente o mais veloz na busca do túmulo vazio, escreveu o quarto Evangelho, aquele que é diferente dos outros três, os sinópticos, aquele que mais do que relatos factuais, enfoca o aspecto espiritual de Jesus.
E talvez o “peso” do “discípulo amado” nas nossas cinco histórias pessoais, todas diferentes entre si, não seja apenas a memória das dores de ombros nos dias a seguir à procissão, e seja muito mais, uma inspiração para a amizade que nos une e unirá sempre, a amizade que não assenta apenas no cruzamento das nossas histórias nos dias que vivemos juntos, mas na extraordinária forma como de forma cúmplice, engrandecemos o estatuto de “discípulos amados” e bem-aventurados da criação, saboreando até à última gota, o doce sabor do prazer que a vida contém.
Porque, se até a Semana Santa culmina com a Ressurreição, porquê fazer da vida, uma roxa e sofrida via-sacra para o calvário?
A vida é grande demais para que o nosso destino seja outro, que não o sorriso dos “túmulos vazios”.
Tentando não desacertar o passo com a sorte, equilibrada vai assim a vida, qual andor, sempre que tentamos ser maiores na nossa forma única de ser e estar, jamais “sinóptica” da forma de ser e estar de alguém.
Exigentes na nossa singularidade, a caminho de uma singular vida de excelência.
E a amizade, sempre, como inspiração e suporte, quais mosqueteiros tornados um, nas procissões da Paixão do Senhor.
Na minha sala mantenho numa moldura, uma foto do meu grupo de cinco amigos, esse privilégio dos meus dias de juventude. Tirámos esta foto há quase vinte anos e… muitos quilos, hérnias discais, reumatismo, diabetes e cabelos brancos atrás, no advento dos quarentões avançados e cheios de charme que somos hoje.
E às vezes passam-se anos que não nos vemos…
E depois desta foto nunca mais voltámos a estar todos juntos…
Mas ainda hoje era capaz de pegar com eles no andor de São João Evangelista, e por cima das hérnias e do reumatismo, não desacertarmos nunca o passo na procissão.
Porque nem o tempo consegue matar o que nos está colado á vida.

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