terça-feira, 5 de março de 2013

Amigos


O domingo amanheceu cinzento, e é de sombras que se me fazem as margens quando cruzo o Tejo rumo a Almada, e depois, pela A6, me entrego ao Alentejo para um breve regresso a casa.
A invernia reserva-me o asfalto só para mim, numa quietude que é desde logo adoptada pelos pensamentos, esses tantos que voam à medida que saboreio a majestade dos sobreiros rasgando o horizonte, nosso conforto e privilégio único de filhos da planície.
Dormi muito pouco, muito menos que o habitual, nas noites de Sexta e Sábado. A inauguração da casa do André e da Catarina, e a comemoração dos cinquenta anos do JP, foram pretextos para jantares de amigos, e entre as gargalhadas, as conversas, as confidências e as cumplicidades, se fizeram muito curtas e voaram, todas as horas destes serões especiais.
E o presente faz-se e adoça-se desta amizade.
Por alturas de Montemor começa a chover de forma intensa, e a estrada é definitivamente só minha enquanto os pensamentos e as memórias me dão o conforto de uma companhia.
O destino, marcado no GPS e que faz com que a “Maria do Amparo” com a sua voz definida como “Amália Metálica” seja a cada cruzamento, a emissora das únicas palavras sonoras que me acompanham, não tardará muito.
À espera em Vila Viçosa tenho trinta anos da minha história, concretizada num enorme e fantástico grupo de amigos com quem partilhei inúmeros dias do meu passado, ali por volta dos vinte anos.
E partilhámos os dias, entrelaçando-os de sonhos e de fé, daquela forma tão especial, que torna eternos, todos os afectos.
Com a bênção do nosso querido Padre Simões, a abraços celebrámos o nosso reencontro, estranhando o facto de as barrigas de forma tão intensa se intrometerem entre nós nesse gesto, oferta dos braços, que tão bem celebra a amizade.
Rita, a frase do dia foi tua:
- “Até as violas parecem estar mais gordas.”
Cantámos, celebrámos a fé que comprovadamente amadureceu connosco, e rimo-nos como nos bons “velhos” tempos, não me escapando eu a um duche de sumo de maracujá vindo da boca de uma dama cuja identidade não divulgo, após um daqueles comentários tolos que por vezes me escapam. O comentário é que é mesmo irrepetível por imposição do pudor.
As cumplicidades eternas na festa da amizade.
A chuva parou quase no preciso momento em que me faço de novo à estrada para regressar a Lisboa, depois de um jantar em família e dessa árdua tarefa de pôr o meu pai a manipular um telemóvel novo. O João Pedro, o Miguel e o relato do Benfica fazem-me companhia, e por entre os lamentos dos falhanços do Cardoso e os ataques perigosos da equipa adversária, lá nos vamos rindo e falando sobre a semana que nos espera e que para eles é mais uma etapa na vivência do primeiro ano dos seus cursos universitários.
A amizade faz-se presente pelas suas inquietações e as suas esperanças, afinal de contas tão iguais às que eu e as mães deles partilhávamos nos domingos à noite quando fazíamos as longas viagens de “camioneta” até Lisboa.
E os sobreiros são agora sombras à mercê da generosidade da lua. E aqui e ali vão-me acompanhando até ao momento em que vislumbro de novo o Tejo.
Para o alentejano, o Tejo, mais do que um rio, será sempre uma corrente de lágrimas ao ritmo das saudades de casa e do campo, por mais que Lisboa nos atraia, bela e sedutora, do outro lado das pontes.
Com urgência, necessito entregar o corpo à cama e pô-lo à mercê dos sonhos.
Adormeço sobre a intemporalidade dos afectos e da amizade.
Jamais saberei se o passado dos afectos me ensinou a viver o presente, ou se pelo contrário, é o presente dos afectos que me permite reconhecer e valorizar o doce dos de antes.
Ou talvez as duas visões sejam verdadeiras e estejam naturalmente presentes nos dias em que nos entregamos à vida, estrada fora, sem medo e sem reservas ao amor.
Não me recordo se sonhei, mas tenho a certeza de que sorri, no outro dia, quando o amanhecer me despertou.

2 comentários:

  1. Que fim de semana , em cheio mas ,não são as coisas bonitas que marcam nossas vidas, mas sim as pessoas que têm o dom de jamais serem esquecidas
    RUI PEREIRA

    ResponderEliminar
  2. Será que há amigos?Há pessoas que só pensam nelas e deitam tudo a perder.A vida tem destas coisas eu já não acredito na amizade de ninguem neste momento.
    M. Pereira

    ResponderEliminar