terça-feira, 12 de março de 2013

“Alentejanês”

Se há quem diga que o Porto é uma nação, não haja dúvidas de que o Alentejo não lhe fica atrás. A cultura e a nossa forma tão própria de ser e estar delimitam as fronteiras de uma terra que sinto minha e que será para sempre a minha casa.

Uma terra de gente bem-disposta e que carrega esse privilégio de saber rir de si própria em infinitas anedotas, naquilo que é prova de uma boa e afinada auto-estima.

É que, mesmo nas dificuldades, do bom tinto e da boa comida, sabemos “sacar” importantes e fundamentais efeitos anti-depressivos.

E entre sobreiros e a imensidão das searas, olhando os horizontes que parecem não ter fim e naquele que é o espaço de todos os afectos, desenvolvemos uma forma única de comunicar. Hoje apeteceu-me partilhá-la convosco.

Atentem então na forma como nos exprimimos e vejam se entendem o nosso linguajar. E ao ler, não se esqueçam de oferecer às palavras aquela sonoridade dolente que nós roubamos ao campo nos dias de intenso estio em que não corre sequer o fresco de uma brisa:

“Antes me tivesse alambazado com uma Açorda de Tomate com capelinhas fritas na sertã, ou mesmo com uma barrinhola de Feijão com Alabaças, seguida de um Bolo Finto, pois logo que saquei o testo e o cace saltou da tigela de fogo e me cheirou a Feijão com Mogango, senti umas ânsias que até tive vontade de abalar...

Mas fiquei, bresuntei um marrocate com pingo e enfardei-o. Estava taronjo e tinha de desenratar.

Ainda havia miolos na laje que tentei apanhar com o vasculho e a ferra mas a cãzinha, sempre de roda de mim, aventou-me com tudo.

Tal tá a moenga, parece que o mundo tá mangando comigo e só me vejo em fezes. Ainda pego numa cachaporra…

Mas não me enrasquei ou assarampatei, havia azeitonas para arretalhar mas antes que as maganas das testalheiras, muito pantomineiras e sempre a dar fé, me pusessem algum anexim, e porque entretanto tinha escampado, peguei no açafate e nas pinças e fui estender a roupa na corda ao pé do bajolo. Mas os piruns não me largavam.

Tal está a porra.”

E então? Fácil?

“Alentejanês” do puro e do melhor.

Como sou amigo, aqui vai uma ajudinha:

“Antes tivesse comido uma Sopa de Tomate com chouriço e toucinho, fritos na frigideira, ou mesmo uma tigela de Feijão com espinafres bravos, seguida de um Bolo Levedado, pois logo que tirei a tampa, a concha da sopa saiu da panela e me cheirou a Feijão com Abóbora, senti uns vómitos que até tive vontade de me ir embora...

Mas fiquei, untei um pedaço de pão com a gordura de fritar a carne de porco, e comi-o. Eu estava tonto e tinha de desenjoar.

Ainda havia migalhas no chão que tentei apanhar com a vassoura e a pá, mas a cadela, sempre de roda de mim, atirou novamente com tudo.

Que aborrecimento, parece que o mundo está a brincar comigo e só me vejo em trabalhos. Ainda pego numa moca…

Mas não me atrapalhei ou assustei, havia azeitonas para cortar mas antes que as horríveis das coscuvilheiras, muito mentirosas e sempre atentas a bisbilhotar, me pusessem alguma alcunha, e porque entretanto tinha parado de chover, peguei no cesto e nas molas e fui estender a roupa na corda junto à pedra grande. Mas os perus não me largavam.

Que chatice.”

Semelhanças? Algumas.

Quanto a mim, basta-me falar ao telefone com algum conterrâneo e o “chip” afina automaticamente: carrego-me da “moenga” ao estilo Grupo de Cantares de Pias, embalo…e lá vai disto.

Com orgulho e sem intuitos separatistas. Afinal são estas diferenças que contribuem para a riqueza da nossa língua.

E em “Alentejanês”? “Tá-se beim!”

3 comentários:

  1. Palavras para "quê"!!!
    Tá bem dito e escrito...
    Assim "semos" um povo unido que jamais será vencido...

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  2. Em completa sintonia com esse "Alentejanês"
    Abraço
    J.Silva

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  3. Épa, nunca pensê que escrevesses aqui o alentejano puro. A gente na encherga que fala desta manera e fica cas calças na mão só de matutar nisto. Engraçado é que é mesmo uma barrigada de rir.

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