terça-feira, 16 de junho de 2015

E apenas o desejo coerente e nosso


Da nossa tarde trouxe palavras infinitas que vou guardando em folhas brancas desenhadas a tinta de cor azul, e trouxe algumas fotos que tirámos e que eu vou revendo, sentindo às vezes por momentos, quase sempre que regresso do voo do pensamento, que as olho a sorrir.
Gosto particularmente daquela em que os nossos pés parecem beijar-se sobre o chão da beira Tejo, e sei bem do que falávamos por ali sentados enquanto um paquete dizia adeus a Lisboa, as ondas se entretinham esforçada e ruidosamente a calar a maré baixa e nós brincávamos com a elegância e a modernidade dos nossos sapatos.
Falávamos de futuro...
O mesmo futuro que nos fez caminhar depois mais um pouco de frente para o sol poente e nos ofereceu o instante de um abraço.
O espaço iluminado pelas paredes num tom lilás a lembrarem os campos da planície onde cresci a sonhar contigo...
O espaço que não consegue abafar o ruído estridente do eléctrico nos carris ousados de uma das curvas do Chiado, e que deixa vir até mim a Lisboa onde as ruas guardam grafitis tatuados pela minha solidão que chamava por ti...
E aquele abraço…
Nós e apenas o desejo coerente e nosso, na ausência total de “espaço” para as convenções e para as alfombras da moral.
Nós na verdade e na confluência vibrante de todos os sentidos.
Nós a voarmos, porque um Homem voa quando prende os braços a quem ama.
Não tive tempo de o dizer, pois breve dissemos o costumeiro até logo com que tentamos amenizar a despedida, e partimos por entre o cheiro a manjerico e a Santo António; mas digo-o agora assumindo-o inteiramente aqui: no domingo dei o melhor abraço de toda a minha existência.
Melhor, não dei, foste tu quem o ofereceu ao infinito desejo que durante toda a vida esperou que chegasses por entre um amor assim… perfeito.
O melhor abraço de sempre. Fica escrito para que sempre seja lembrado assim.
No regresso a casa, o volante já não estranha o gosto a sal que as minhas mãos lhe oferecem sempre que estou contigo. É que os olhos de tão entretidos a sorrir deixam escapar detalhes líquidos de uma alma que transborda felicidade.
E depois, até os meus pés têm saudades dos teus… e da beira Tejo. 

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