quarta-feira, 10 de junho de 2015

Portugal, pois claro…



Por muito longe que estejamos do mar nunca conseguiremos estar a mais de um par de centenas de quilómetros, um ínfimo passo de formiga no todo imenso do universo.
E por isso somos todos marinheiros, de alma e tecidos da ousadia de navegar, até mesmo quando entre pinhos e carvalhos subimos as serras, desenhados degraus para um infinito em tons de azul, o céu que sempre insistimos chamar nosso…
As serras beijadas pelos mesmos ventos com aroma de sal.
Temos fé, caminhamos como quem reza e acreditamos no destino que cantamos até a chorar.
O fado, o xaile preto, mil equívocos recorrentes numa história que parece sempre querer contrariar a boa sorte; e os heróis que entregam o suor à seara conhecem às vezes a dor de não ter pão.
Não nos falem de impossíveis, e de relógios... no final acabamos sempre a conseguir, “desenrascamo-nos” e bate sempre tudo certo, ainda sobrando tempo para comemorar as vitórias com um copo de tinto.
Do Douro, Alentejo, da Bairrada ou do Dão?
Tanto faz, que o sol aqui é sempre generoso e a terra também.
A mesma terra das laranjas do Sul, das cerejas na Beira e do milho em searas infinitas entre as serras do Minho.
E provem um prato de tripas no Porto para ver se ainda conseguem afirmar que das ditas não somos capazes de fazer coração…
Somos poetas, partilhamos o nosso dia com Camões e a vida com Pessoa; sabendo que as rimas entre sílabas pouco importam, assim se expresse a verdade e o que nos vai no coração.
Por muito amargas que nos saiam as palavras, sabemos sempre que as mãos se estendem e que os corpos se entrelaçam nos abraços precursores das mesas acesas de queijo, de pão e broa… em romarias de amizade.
Rimo-nos de nós, dançamos (e só no baile aceitamos ser mandados), fazemos rimas, marchamos contra as injustiças e no Santo António, fazemos revoluções com flores, despertamo-nos com um café, escrevemos cartas uns aos outros e aos amores.
De brandos costumes, tapamos os vícios privados com janelas de tabuinhas, ali mesmo por cima das públicas e serenas virtudes comemoradas no braseiro com febras, pimentos e sardinhas.
Pelo tanto sentir a dor da espera em cais vazios e de solidão, inventámos a saudade, deixando-nos ir pelos instantes em que à face afloravam os segredos salgados que partilhamos com o mar.
E às vezes praguejamos contra tudo e todos, contra o infortúnio e a má sina:
“Só mesmo neste país”
Sem pensarmos que há coisas que nunca mudam porque serão eternamente nossas, estão no ADN e estão presas à raiz.
Não nos privem da liberdade, chamamo-la sempre nas madrugadas inspiradas nas morenas vilas do sul, e fazemo-la entrar nas nossas casas de granito ou de cal, mas sempre rasgadas por janelas que enfeitamos com craveiros e muitas flores.
Gostamos de futebol, mais de ver do que jogar, e um golo da Selecção é talvez aquilo que mais nos faz vibrar.
Fazemos festas, muitas festas de arraiais, farturas e Zés Pereiras, gambiarras erguidas ao céu que à noite enfeitamos com fogo de todas as cores.
Ingovernáveis, estranhos, únicos, impossíveis, adeptos do caos e da confusão…
Chamem-nos o que quiserem mas há oitocentos anos que somos nação.
Portugal, pois claro.
   

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