domingo, 28 de junho de 2015

Enquanto as hortênsias da Praça se espreguiçavam de cor ao sol do meio dia

O sol em brasa, quase a pino; não tardará já o instante em que no campanário soem as badaladas do meio dia.

O verão pede incessante a sombra de uma laranjeira, há vasos de hortênsias ao redor da Fonte da Praça, as mesas do Restauração fazem-se tronos de um império de riso e palavras à solta.

Vila Viçosa...

Há recantos e instantes que serão sempre a nossa casa; uma eterna casa, mesmo que o tempo a vá redesenhando, colocando novas varandas, alterando as portas e as janelas, oferecendo-lhe inéditas dimensões...


O tempo e tudo o que dele fomos fazendo nos dias intensos de quem vive e sorve a vida até ao mais ínfimo detalhe.

Estamos sentados, somos quatro, amigos daqueles de sempre e no parapeito de um tempo, de uma nova varanda de onde podemos ver-nos e escutar-nos por ali a brincar nas manhãs de verão iguais a esta.

Foi há muito pouco mas já passaram bem mais de trinta anos; eu já não vou virar para a Rua de Três, a Zinha não vai subir a Praça até à Rua dos Fidalgos, a porta da casa da mãe do Manuel está estranhamente fechada, e a loja do Senhor Domingos, o pai do João Paulo também já não existe.


As dores do tempo são as saudades, muito mais do que as rugas; que essas até as disfarçamos numa gargalhada.

Mas por sobre quaisquer cinzentas saudades existirão sempre  as cores garridas e ousadas do presente, o único tempo verbal capaz de fazer acontecer... e de nos fazer acontecer.

E no parapeito da nossa nova varanda e tendo como som de fundo a banda sonora das manhãs de há décadas, soletrámos vontades, fizemos planos, mas sobretudo vivemos e saboreámos a amizade sem ter outras inquietações.

Um dos maiores benefícios do Alentejo é ensinar-nos a nunca desperdiçar segundos de vida acelerando na pressa.

O tal sorver a vida...

E nós deixámo-nos acontecer em tudo e nas palavras emergindo o melhor de nós enquanto as hortênsias da Praça se espreguiçavam de cor ao sol do meio dia.

Por entre aquilo que nos levaram, os dias têm-nos trazido coisas tão boas... e estamos fantásticos.

Eu desci a Corredora a tecer um poema de amor envolto pelo céu que me abraça.

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