sábado, 29 de setembro de 2012

Restauro à Espanhola


Há alguns meses, Cecília Gimenez, uma octogenária espanhola, paroquiana activa de uma pequena localidade nos arredores de Saragoça, achando-se com dotes de artista, resolveu “restaurar” um famoso e valioso fresco existente na sua igreja, datado do Século XIX e representando o rosto de Cristo.
O resultado do seu trabalho situa-se nos territórios da caricatura e pode dizer-se que a intervenção ainda conseguiu estar muito para lá das bombásticas plásticas da Manuela Moura Guedes.
Ontem, ao conhecer os resultados da execução orçamental relativos ao primeiro semestre de 2012, entre deficits, PIB’s e demais instrumentos e escalas de avaliação do estado da nossa economia, lembrei-me da Cecília Gimenez.
É um facto de que o país estava a necessitar de uma intervenção e de um restauro, mas os artistas que tomaram em mãos esse trabalho, sobre as ordens e o mecenato da Troika, seguindo uma cartilha teórica e experimental que tem a forma de um memorandum ao estilo das instruções do IKEA (“Faça um móvel sem nunca ter sido carpinteiro pois é tão simples como ser doutor sem nunca ter ido à escola“) deixaram-no no que é hoje: uma caricatura de país.
Aliás, conseguiram ser piores do que a velhota Cecília pois não consta que ela tenha levado à ruína os restantes paroquianos a pretexto de comprar as tintas e os restantes materiais para o restauro. E a ela, o que faltava em jeito sobrava em voluntarismo, coisa que nem por sombras, estes “líderes” desajeitados do nosso tempo, conseguem ter, nem apenas por um pouco que seja.
E não houvesse tanta dor de muitos, e esta caricatura de país, como a do Cristo de Saragoça, até poderia ter alguma graça.
Com urgência venham mestres e pedreiros, e tragam a sua arte, que os serventes e aprendizes, sozinhos, estão a destruir-nos os alicerces e estão a dar cabo de ti, Portugal.

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