sábado, 1 de setembro de 2012

Uma régua e a vida


Na casa que foi sempre sua, estou sentado num longo banco de madeira nascido da sua arte de carpinteiro. Há algum tempo tirámos-lhe a custo a tinta encarnada que o cobria e fizemo-lo regressar ao sítio onde sempre esteve e onde foi ao longo dos anos, o assento preferido por mim e por todos os meus primos quando em visita a este rés-do-chão simples e pequeno que era a casa dos nossos avós.
Hoje, já não tem vista para o poial dos cântaros e dos alguidares de barro, já não serve para que descansemos enquanto observamos a nossa avó Natividade a fazer os mais fantásticos pastéis de massa tenra do universo…
Hoje, tem a melhor vista para a minha colecção de presépios e tem sobretudo esse mágico condão dos objectos da nossa história: a indução das doces e melhores memórias.
Do meu avô Francisco, para nós o avô Chico, mestre de carpintaria, herdei uma infinidade de boas lembranças, daquelas que são únicas dos bons avós, para lá do nome e da… teimosia, ou a arte de levar as convicções aos territórios para lá do normal, se formos mais rebuscados no Português e sobretudo mais benevolentes na avaliação da dita característica.
Guardo as memórias das nossas conversas quando a sua reforma e as minhas férias nos ofereceram muito tempo para estar juntos. Recordo as longas histórias nas lições partilhadas de vida, e sobre a vida.
Recordo os “bombons” de avô…
A nota de vinte escudos com a imagem de Santo António em cada um dos meus aniversários, era um presente memorável, e o leitor de cassetes que recebi como presente quando concluí com êxito a 4ª classe e que me permitia gravar todos os Festivais da Canção com a ajuda de um pequeno microfone colocado junto à televisão depois de exigir silêncio a toda a família, foi por certo uma das melhores surpresas que me preparou.
Mas o melhor presente de todos, foi-me oferecido nas vésperas de eu entrar para a Escola Primária. O avô Chico fez-me uma régua em madeira na qual com cuidado e rigor marcou os milímetros e os centímetros.
Uma régua personalizada e nascida só para mim, privilégio de muito poucos.
Uma simples régua de madeira ou um dos melhores presentes que alguma vez já recebi.
Jamais os poderosos conhecerão este sabor doce e requintado das coisas mais simples, privilégio único de quem tendo pouco, lhe sobra tempo e espaço para valorizar os detalhes e sentir o amor por detrás deles.
Nunca a régua do avô Chico me deixou ficar mal, dando-me sempre as medidas certas e a faculdade de traçar direitas as rectas em qualquer um dos meus desenhos.
Na matemática, no desenho e na vida, jamais as marcas do avô Chico me deixaram ficar mal.
Com 80 anos, o avô partiu em Fevereiro de 1990 nas vésperas de eu começar a trabalhar, nestas passagens informais de testemunho que a vida se encarrega de fazer naturalmente entre avós, filhos e netos.
Partiu sem jamais crer que o Homem alguma vez pisara o solo lunar, com a frustração de nunca lhe ter saído a lotaria, o seu maior vício e a maior das suas “cautelas” nos últimos anos de vida, e com a alegria de poder ir privar no Céu com a Senhora da Conceição que de fé lhe marcara toda uma vida.
Eternizado em mim e na memória de todos os que o amamos, o avô Chico faz amanhã 103 anos.
Marca e marcará sempre com felicidade, os centímetros dos nossos caminhos.

2 comentários:

  1. As coisas boas da vida,não duram para sempre ,
    Más são que deixam boas recordações,quem nao tem saudades do avõs
    PARABENS esta lindo
    RUI PEREIRA

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  2. Isto é a vida, contada de uma forma tenra e doce e tal como na vida é sempre bom ter uma regua para que os nossos valores nunca se desviem. Obrigado Joaquim
    Carlos Delgado

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