sábado, 27 de novembro de 2010

Juan e Angeles

Conheci-os em 2001, são os pais do meu particular e querido amigo Juan Blas Delgado.
Celebrámos o nosso primeiro encontro com uma visita a Mafra, impulsionados pela vontade de ver de perto o Convento de cujo Memorial, Saramago foi autor maior.
Dali fomos até Sintra, fazendo o percurso inverso das grandes pedras, verdadeiras heroínas do livro que descreve os amores de Baltasar e Blimunda.
Acabámos a tarde aconchegados a um chá em Seteais, falando ali, à sombra da Pena e do Castelo dos Mouros, e avistando ao longe o imenso Atlântico, de sete ais, de sete suspiros, de lendas de moiras encantadas e de amores.
Sintra no seu melhor. Como para Byron ou Eça, Sintra também foi para nós nesse fim de tarde de primavera, o mote para falar de amor.
Desde então foram incontáveis os momentos que passei com o Juan e a Angeles, sobretudo na sua casa acolhedora na pequena terra mineira de Riotinto, bem no meio da Serra de Huelva.
E a recordação mais viva desses encontros, será sempre a imagem de uma felicidade perfeita vivida a dois, felicidade cujos olhares e os gestos, sempre mais verdadeiros e fiéis do que as palavras, denunciavam a cada instante.
O Juan, poeta da Serra, das terras e dos rios que o cobre transforma em tintos, partiu em Maio último, ficando imortalizado nos seus poemas e nas memórias indeléveis que gravou em todos nós.
A Angeles, soube-o ontem, está desde quinta-feira internada na Unidade de Cuidados Intensivos de um hospital após ter sofrido um enfarte do miocárdio.
Quando se procuraram os factores de risco, a razão para o enfarte, só se encontrou um: a tristeza.
É o seu coração, esse órgão que universalmente gostamos de associar ao amor, a deixar-se levar pelas ondas do mar da saudade e do vazio criado pela ausência do seu eterno amor.
E o amor é mesmo isto. É sermos um e nunca encontrar em mais nada ou ninguém, compensação para a perda da outra parte de nós.Por mim, voltarei mais vezes a Sintra e sei que para sempre encontrarei por entre as brumas do Monte da Lua e as minhas memórias, a lembrança de um grande amor: Juan e Angeles.

3 comentários:

  1. Bonito ... e triste. Mas verdadeiramente nobre. Sem outros comentários relevantes, para isso fica o seu texto.

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  2. Quando o amor é assim, não há muitas palavras que o expliquem! Quem o vive, sabe bem o que é! Sinto-me uma privilegiada a esse nível! Um amor assim faz-nos sentir felizes e realizados! Um beijo de coragem ao Juan!

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  3. Quando leio estórias destas, fico sempre com a lagrima no olho. Pela estória em si e porque me me vejo nela daqui a uns anos; espero que muitos.
    O Amor é mesmo assim. quando não é assim algo está errado.
    Uma estória boa e bem escrita. Já pensaste juntar todas num livro?

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