domingo, 11 de dezembro de 2016

Quantas vidas cabem na tarde de quem escreve uma história?


Raras vezes a verdade se mostra muito facilmente a quem manifeste intenção de a espreitar...

Aqui sentado a esta mesa de madeira e virado para o Palácio da Pena que muito ao longe coroa o Monte da Lua, acharia quem voasse frente à minha janela, que um homem mergulhou na Sinfonia Número 4 de Brahms para fugir à solidão.

Quantas vidas cabem na tarde de quem escreve uma história?

Converso com a Gertrudes numa casa grande de Vila Viçosa, vejo-a mais gorda a carregar baldes de água desde o poço do quintal até ao lava-louça, e até decido pôr no ar um aroma a Sericá acabado de sair do forno; só porque aquela cozinha está com um aspecto demasiado frio.

Andei à procura das cores de Agosto no Alentejo e fiz com que o Manuel entrasse numa taberna para beber um copo de vinho.

Desenho o sol, coloco estrelas numa noite de lua cheia, ponho versos na boca de alguém…

Tudo, lentamente e letra a letra num desenho que se lê; por onde também passaram a Mariana, a Filipa e a Aurora, que não é lá muito bem vista no contexto desta história.

Sei que um dia terei saudades de toda esta gente que inventei e do tempo que por aqui passámos juntos.

Um escritor nunca perde o mundo, reinventa mil por sobre o tempo que lhe dão.

E mesmo que baixe a cabeça, pensativo, taciturno, para ver como as letras avançam; não caiam no pecado de ver nesse gesto um pranto de solidão.

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