segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

“These happy days with happy socks”


Quando a Julie Andrews irrompeu pela RTP1 a entoar melodias, destemida e aos pulos pelas montanhas de Salzburgo, já os meus pais tinham recebido de presente de Natal, um tablet, para poderem falar connosco diariamente por Skype.

O som da música, do coração dos Von Trapp, pois claro, nasceu um ano antes de mim; ali mesmo a tempo de me acompanhar em todos os Natais, desde a era do Telegrama e do Postal dos Correios a este tempo imensamente digital. As falas e os rostos são já tão familiares que será impossível sentir-me “sozinho em casa”.

A mãe melou os nógados quase em cima da hora da ceia e há três fiadas dos ditos sobre a tábua mais velha do que eu, talvez da idade da película. A história dos nossos Natais, ao som da Julie Andrews, poderia escrever-se assim em linhas de mel e massa frita à chaminé.

Antes que os anjos chegassem ansiosos por cear e nos apanhassem ainda de volta da mesa, resolvemos ir dormir quando a Baronesa tentava atrapalhar a história de amor entre a Maria e o Capitão. Amanhã faço a televisão andar para trás e vejo a cena dos túmulos, que é a minha favorita.

O frio do abraço do lençol que sabemos se dissipará em minutos, o silêncio das ruas sem carros, a escuridão em que mergulhou o resto da casa… enquanto alinhavo os meus versos, faz-me perceber que a noite de Natal foi inventada para os anjos e para os poetas, para que juntos celebremos o amor colhendo a paz que nos traz a lua.

Não me recordo de ter adormecido mas acordei com o sino da capela. Um café quente, a missa, o padre que pergunta o sentido da vida, nós a brincarmos como antes na fila para beijar o Menino Jesus.

Beija-se no joelho ou no pé?

À porta da igreja uma amiga diz que está calor. São Aurélio, não há frio de Dezembro que resista ao meio-dia dos nossos abraços e gargalhadas. A nossa amizade contribui para o aquecimento global do planeta.

Deixo a Avenida, baixo-me para não magoar as laranjas com alguma indesejada cabeçada e...

O sentido da vida?

Senhor Padre Francisco Couto, é definitivamente o amor.

O amor que não exclui nenhum “pedaço” do que somos e fazemos, e o amor que concretiza a verdade que trazemos no peito.

Last Christmas I gave you my heart”.

É irónico que o George Michael parta num dia de Natal e por causa de uma crise cardíaca.

O amor, a vida, a fé, o tempo… e a urgência de nos deixarmos acontecer.

Vou ficar por aqui esta semana, entre outras coisas para que os meus pais se familiarizem com o Skype.

E os dias quando são felizes exigem que tudo se alinhe com eles. Até as meias.

É aproveitar porque a vida ainda não imita a televisão na hora de andar até às “cenas” de que pretendemos matar saudades.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário