segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

É a geometria...


Recordo-me bem do tom gélido da noite sempre que saíamos do Castelo pela porta da Torre de Menagem. Acudia-me com pressa o xaile da minha avó, macio e rodeado de cadilhos que davam para entreter as mãos.

Saio da novena da Senhora da Conceição com a minha mãe ao lado, e conduzo o carro que traça uma perpendicular com esse tempo de rapaz, ali por debaixo das alfarrobeiras que ladeiam o Pelourinho.

As mesas são compridas e oferecem um espaço generoso para as gargalhadas, que o riso mais do que o pão, nos envolve numa noite em que os plátanos não resistem mais à nudez e nos enfeitam os carros com folhas da cor do Outono.

Não importa se nascemos no mesmo ano, por acaso, sim, em 1966; não importa se partimos, se ficámos, o que foi que fizemos com o tempo...

Temos a cumplicidade suprema de quem brincou sobre o mesmo chão, e esta noite fria de Dezembro traça uma linha perpendicular ao tempo em que rasgávamos os joelhos nos troncos das árvores do Rossio para conseguirmos comer amoras.

Há instantes que nos cruzam com a nossa história algures pelas ruas onde nascemos... e brincámos.

É a geometria, raiz daquilo que somos.

O domingo de manhã deixou que a chuva descobrisse uma nesga de céu, que vejo desde o cimo da Praça olhando o Castelo.

Não tenho dúvidas, aproveitarei as asas que me ofereça a eternidade, e voltarei aqui para voar, rodopiando alegre sobre a fonte.

Talvez encontre um amigo para brincar, e estou certo, que comprovarei que de céu, já muito tinham todos os dias e essas noites em que as avós nos ensinavam a rezar.

 

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