sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Um dia tão… “Correio da Manhã”


A manhã de Lisboa está húmida e a exigir impermeáveis e chapéus-de-chuva, estes últimos colocados num recipiente próprio existente à entrada da Pastelaria, para que possam pingar à vontade.
Entro, cumpro o ritual do chapéu-de chuva e busco um lugar ao fundo da sala comprida, ficando virado para a porta e para a montra que me revelam os jardins da Gulbenkian.
Surpresa…
Toda a gente virou costas à porta e está sentada de frente para mim que assim me sinto um verdadeiro maestro a dirigir uma orquestra formada por seis intérpretes femininas.
Depois de olhar para a televisão colocada na parede atrás de mim entendo o porquê desta situação: Correio da Manhã TV 6 – Jardins da Gulbenkian 1.
Perco por goleada.
Enquanto elas se actualizam relativamente ao conflito Bárbara / Carrilho, à guerra Marco Paulo / Kátia Aveiro e absorvem as últimas notícias que chegam da prisão de Évora, eu fico como que parado perante as páginas abertas de uma caderneta em que os cromos divergem pelo desenho e grau de aprumo das sobrancelhas, os tons impossíveis do cabelo, as unhas de gel que lutam contra as asas das pequenas chávenas do café, os fios e os adereços comprados com cheques pré-datados às vendedoras que passam pelas repartições…
E todas bocejam e emitem pragas sobre o trabalho que as espera, presumo que mais pelas horas que vão dali até dezoito do que propriamente pelo conteúdo do mesmo.
Entretanto, o empregado que assassina a discrição pois grita tudo o que se lhe pede:
- Sai uma sandes de fiambre em forma aparada sem manteiga e um abatanado… sás xafori.
Que é também o mesmo que grita as contas e diz “eirós” e “córenta” em vez de Euros e quarenta; tenta que a mais velha das senhoras, a Dona Elvira, baptizada com um nome que lhe assenta que nem uma luva dado que ela deve ter nascido no tempo em que os seus homónimos veículos ainda atravessavam a capital e os Jardins da Gulbenkian ainda eram terreno da antiga Feira Popular… decida o que vai comer ao almoço:
- Picanhazinha, chocos à algarvia, dobrada à moda da casa…
Mas a D. Elvira que tem uma cara que parece denunciar que ela está há meio ano a inalar os vapores de uma central de resíduos sólidos, nem se manifesta.
Eu tenho a certeza de que ela vai acabar por comer uma salada de alface com queijo fresco para ver se consegue drenar-se e ficar com a mesma cara da menina do Correio da Manhã.
Está na minha hora…
Levanto-me, pago a conta que o “Córenta” apregoou à malta.
Ainda recebo com um:
- O amigo por acaso não tem dez “cêntimezinhos”?
Tenho, facilito o troco e…
- Óbrigadinho amigo e um bom dia.
Dirijo-me à porta, retiro o meu chapéu-de-chuva discreto da amálgama de outros de cabos dourados e prateados que parecem adereços dos travestis do Conde de Redondo, e saio.
Ainda pisco os olhos aos Jardins da Gulbenkian.
Que bom ainda os ter por ali num dia tão… “Correio da Manhã”.

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