quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Choverão flores sobre nós nesses dias da primavera que esperamos


A chuva miudinha da manhã de Lisboa molha-nos a todos com independência do estatuto intelectual que assumamos ou nos atribuam; e como tudo o que existe tem sempre um lado positivo, até mesmo o mais negativo, as filas de trânsito que ela patrocina à entrada da cidade têm o condão de nos dar tempo suficiente para desfrutarmos dos detalhes que de outra maneira iriamos ignorar.
Vejo as árvores de Monsanto…
Estão verdes no benefício das folhas que nunca as abandonam, e em algumas das outras, aquelas que o inverno despiu, já floresceram pétalas entre o tom branco e o rosa, detalhes que lhes dão um ar de festa e nos lembram a primavera.
O mesmo tom rosa que brilha com o amarelo nas fachadas ainda mais viçosas depois da chuva que enegreceu o tom dos telhados que as encimam.
Percorro a cidade segundo a rota das obrigações, mas é impossível não desfrutar do que vejo, da chuva, e recolher da manhã a poesia da mais intensa das devoções.
Lisboa será sempre a minha cidade por ser a pátria mãe do meu amor.
Depois de descer a Rua de São Bento, de espreitar a casa de Amália, dou comigo a descer a Avenida D. Carlos I. Os jacarandás oferecem-me um tecto, por estes dias verde, nas folhas que brotaram dos troncos negros que na primavera serão o esqueleto e a fonte que sustentará a mais intensa explosão de lilás.
Choverão flores sobre nós nesses dias da primavera que esperamos.
E não tardo a chegar ao rio.
À minha direita passa acelerado, o comboio, e à esquerda vejo gente que corre em paralelo com as águas como num esforço último para impedir que elas se entreguem ao mar.
O Tejo que hoje está cinzento da cor da chuva.
E antes de deixar Lisboa, despeço-me do tom garrido das fachadas das casas que fazem a guarda de honra ao Mosteiro e a Belém.
A chuva miudinha persiste sobre mim; não são lágrimas, não são tristes, são beijos da cor do Tejo para que paremos um pouco o bulício da manhã e sintamos que já não tarda a primavera.
Os tais dias em que choverão flores na Lisboa que é a casa do meu... do nosso amor.

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