sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O aroma das rosas persiste sempre entre os dedos muito para lá do instante em que as pétalas voam


Nem a proximidade do Atlântico tem conseguido contrariar o destino gelado das manhãs dos últimos dias. O edredão é um refúgio memorável que nem um só pêlo da barba despreza até àquele terrível momento em que o despertador induz a razão e nos faz acelerar para o inevitável duche; destino onde até não se está mal depois da água quente começar a chegar vencendo a congénere gelada que passou a noite nos canos e nas paredes lá de casa.
Depois… as torradas, o copo de leite, o café, a mochila ao ombro, a confirmação do que há nos bolsos, o sair de casa, o elevador, alguma conversa de circunstância com os vizinhos, e a porta da rua a revelar uma brisa só comparada à que recordo de Vila Viçosa quando a geada matava o verde do jardim para nos dar a ilusão da neve.
Ajeito o sobretudo e o cachecol com as mãos e a mesma genética que antes puxava para cima a gola de pele do capote castanho para melhor resistir ao frio que a caminho do velho liceu sempre se cruzava comigo no Terreiro do Paço.
Agora acelero em direcção ao carro.
Vejo o sol a nascer intenso, redondo e em tons de ouro, por detrás da mais resistente das árvores, aquela que entregou todas as folhas ao vento e se manteve assim firme e majestosa na verdade despida dos seus troncos e ramos, isolada no alto do monte fronteiro à porta do meu prédio.
O carro está frio, o rádio liga automaticamente, o volante está gelado e antes de arrancar é necessário um esfregar e um bater de mãos extra… sempre a olhar o sol por detrás da “minha” árvore.
Tenho saudades tuas… mas sinto-te inevitavelmente perto.
O aroma das rosas persiste sempre entre os dedos muito para lá do instante em que as pétalas voam; e o sol não deixa de brilhar mesmo nas manhãs frias do inverno que despiu as árvores e desrespeitou o Atlântico que lá ao longe vou descobrindo azul à medida que avanço pela estrada.
Não sei qual a música que o rádio me ofereceu pelo caminho à medida que as minhas mãos foram aquecendo o volante, viajei com a persistência da lembrança do teu olhar azul como o mar.
Tenho saudades tuas…
Mas és tu quem me vai aquecendo pela manhã.

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