domingo, 18 de janeiro de 2015

Basta uma só palavra para matar todos os silêncios do universo


Ontem depois do jantar e aqui na mesa da sala, eu e o meu sobrinho João fizemos uma sementeira de coentros, colocando as sementes num cartuxo próprio e sofisticado que a minha amiga Teresa Lopes me ofereceu como presente de Natal.
Regámos e esperamos agora que junto à janela da cozinha possam nascer os temperos que acompanharão os alhos na festa das nossas açordas.
Depois, mais tarde, adormeci ao som da chuva a bater forte na vidraça com o impulso de um vento de uivos prolongados e intensos de onde às vezes a imaginação consegue retirar palavras que contam histórias.
Mas a noite levou o vento e está muito calma a manhã que trouxe com ela um nevoeiro que não deixa ver quase nada para lá da vidraça; não há árvores, verde, o mar ao longe, e a janela é agora um enorme espelho onde me vejo a mim e vejo tudo o que o pensamento permite, que essa é a vantagem que colhemos dos instantes em que os olhos vêem pouco.
E a revisitar papéis, cedo esta manhã, encontrei algo escrito por mim em Maio de 2013.
Fala sobre o silêncio:
Quem atira as suas palavras para o silêncio
Vê-as morrer
Como o inevitável destino de um papel no fogo que arde

Porque o silêncio é sempre o silêncio

Por mais que queiramos que o não seja
Por mais que imaginemos que o não é
Por muito que acreditemos que o deixará de ser mais cedo ou mais tarde  
Não consigo lembrar-me do contexto em que escrevi isto, mas acredito que possa ter sido quiçá numa manhã em que todas as janelas me devolveram a minha imagem, muito mais do que qualquer outra coisa.
Com uma diferença em relação a hoje…
Na mensagem que me enviaste ontem antes de adormecer dizias que me adoras, e a janela e o nevoeiro hoje mostram-me o mundo todo no detalhe do brilho intenso do meu olhar; sem espaço para o silêncio, pois brotam de mim palavras como do pequeno saco castanho da sementeira de ontem um dia nascerão as viçosas as plantas, das quais prometi ir mandando registo fotográfico para o João.
O silêncio poderá ser sempre o silêncio…
Mas basta uma só palavra para matar todos os silêncios do universo.  
E quando dizes que me adoras… 

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