sábado, 11 de agosto de 2012

À boleia de um sábado de nevoeiro


Ousadas, as nuvens desceram para nos beijar e de um claro cinza tingiram o mar, fundindo-o com o céu.
Por momentos, morreu a linha do horizonte, e só a intensa brisa com aromas de algas e sal, denuncia a presença de um braço de oceano aqui por perto.
A brisa, e a revelação de um pequeno barco ao longe, sombra escura e uniforme, assim criada pelo contínuo biombo de nuvens que persiste e se eterniza entre a Terra e o Sol.
E há algures no barco, um Homem que lança a rede ao cinza que o envolve, teatro de sombras, ritual de esperança, prece por alimento, mais a Deus do que às águas. Ao Deus da fé, dos pescadores, ao Deus que os sinos recordam no seu repicar compassado a cada quarto de um tempo, que não fosse o soar metálico de um Avé de Fátima, e pareceria eterno.
Na rua por debaixo da minha janela, surge de repente gente, um grupo que passa e ri muito alto, enquanto acelera rumo ao vazio, procurando o mar. É sábado e verão, e eles cumprem por certo o compromisso de festa agendado há muito no calendário dos seus dias de labuta.
E mesmo sem sol, bastam anedotas e gargalhadas para celebrar a chegada ao ponto onde, hoje mais por fé do que evidência, se sabe que se está junto ao Atlântico.
Breves, passam e regressam, restituindo o silêncio que só não resiste ao bater dos sinos, e, entre os quartos de uma hora, ao ruído e ao voo de umas muito poucas mas imponentes gaivotas de longas asas.
E é a paz do privilégio deste momento que me oferece a ousadia de dispensar as reservas e de me deixar ir com elas, as asas, os impulsos mágicos do meu pensamento, para lá de tudo e para lá de todos, para os sonhos, para o espaço onde se bebe a vida e se alimenta a construção do eu pleno, o eu feliz, para o altar onde nos despimos de tudo o que não somos e se operacionaliza o matrimónio da nossa existência com o compromisso indelével da mais fiel felicidade.
É sábado e verão, é um dia sem sol e à minha frente há uma infinidade de cinza que acredito, que sei, ser céu e mar.
É sábado e verão, é um dia sem sol e… juro-vos, vou ser feliz.

1 comentário:

  1. É a paz que sempre nos leva ao melhor de nós. A paz e a fé
    RUI PEREIRA

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