quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Belas e tecnicamente assistidas


O final de Agosto e a preparação do visual para o regresso ao trabalho após as férias, por certo justificará as dezenas de números à minha frente na fila para cortar o cabelo, que me colocou durante alguns largos minutos em contacto com a componente feminina do cabeleireiro misto que frequento.
Uma janela aberta para o universo feminino e para os segredos que ele encerra.
Gordas, magras, altas e baixas? Não importa, porque todas as clientes ficam iguais depois de cobertas por larguíssimas capas negras semelhantes às que antes na minha terra se fabricavam para cobrir e disfarçar as botijas do gás.
De capa, e sempre de mala ou carteira na mão, a provar que os cabeleireiros de senhora não são espaços desprovidos de amigas do alheio.
Sentadas ou em movimento, porque às dezenas circulavam naquele espaço, as mulheres de capa fizeram com que me sentisse no espaço de uma edição dos Jogos Sem Fronteiras, num jogo de bonecos sempre-em-pé à espera de serem derrubados pelos elementos de alguma equipa de Albufeira ou Gondomar.
Nas capas, reparo, há um bolso onde o funcionário da recepção coloca um papel, por certo com o circuito de beleza e tratamentos a aplicar. Qual processo clínico à entrada para um bloco cirúrgico.
A coisa é mesmo a sério e eu não resisto a fazer circular o meu olhar pelo espaço.
Há uma senhora sentada e com um ar super aborrecido, de mala no colo e com a nuca encostada ao lavatório, que tem a cabeça coberta por uma toalha que só deixa observar uma pilha de materiais metálicos que lhe assentam na testa, quase ao jeito de estar a equilibrar na fronte, dez tabletes de chocolate da Regina.
Reparo numa cabeleireira que com uma só mão segura dois secadores e puxa com tal violência o cabelo da cliente, que se o fizesse assim a mim, confesso, deixar-me-ia morto. Com a ajuda do espelho, procuro o fácies da senhora para ir em seu auxílio com o olhar e dar-lhe algum conforto. Surpreendo-me. Está com um ar tão sereno que parece ir adormecer em breve.
Do outro lado há uma mãe que levou as duas filhas com ela, e o que se assiste é um verdadeiro ritual de iniciação, com a mãe a explicar tudo em detalhe às filhas que não deixam de estar algo assustadas com as investidas da cabeleireira e a sua escova de tortura.
Há mulheres que não satisfeitas com a intervenção nos cabelos, fizeram sentar junto a si uma manicura numa cadeira baixa, e estão assim despojadas de cabeça e mãos, entregues aos tratamentos das funcionárias que se entretêm a discutir a edição da Caras ou a novela da TVI.
Observo então as restantes cabeleireiras e vejo que todas interagem umas com as outras, falando de tudo o que lhes passa pela cabeça, totalmente alheias, de olhar, ouvido e pensamento, das mulheres que depositaram os cabelos nas suas mãos e que sofrem pelos repelões violentos nesta guerra de escova e secador. Repelões dados ao ritmo da conversa com a parceira do lado e, meu Deus, quanto stress descarregado nas melenas alheias.
Na parede ao meu lado está um painel e mal começo a ler encontro justificação para esta confusão: às quartas, 20% de desconto em Trabalhos Técnicos.
A malta veio em massa porque hoje é mais barato e eu sem saber vim meter-me num “Pingo Doce” em Dia do Trabalhador.
Mas, Trabalhos Técnicos?
Socorro-me do precário, que também está no placard, para melhor compreender o que são neste universo, Trabalhos Técnicos, e fico a saber que o Brushing Tissagem, o Penteado Babyliss, o Flash Total, as Madeixas de Touca Cabelo Curto, o Color Touch, a Dose Suplementar de Tinta, o Banho Americano, a Meia Ondulação, a Desfrizagem com 100 ou 50 ml de produto, a Progressiva Intensa com 60ml de produto, a Térmica com 200ml de produto e a Dose Extra Térmica, o serão por certo.
Entretanto chamam o meu número, corto o cabelo e em minutos estou na fila de pagamento, também ela mista e impregnada de mulheres após Trabalhos Técnicos.
Há no ar um cheiro a produtos, mas confesso-vos que nenhum tem o cheiro tão agradável da laca que a inesquecível e fantástica D. Mariana Aurélio colocava no cabelo da minha mãe e que eu não resistia a cheirar sempre que ela chegava a casa.
Mas tenho de confessar, as pagantes que como eu aguardam na fila, estão todas mais bonitas.
Valeu a pena a intervenção técnica ao fim de tarde. 

3 comentários:

  1. Valeu então a pena as intervenções técnicas.As mulheres estão cada vez mais bonitas .
    Rui Pereira

    ResponderEliminar
  2. Bonito o texto. Vale sempre a pena ir ao cabeleireiro quem é que não gosta de ficar com o cabelo bonito.
    Até os homens.
    M.Pereira

    ResponderEliminar
  3. Pois é, assim, se calhar, também eu ficava bonito. A verdade é que, cada vez que vou ao cabeleireiro, venho de lá mais careca. Isto não me parece bem, mas é o que se arranja. A vida tem bons e menos bons momentos.

    ResponderEliminar