sábado, 9 de fevereiro de 2019

“O sol é um homem, mas a madrugada é uma mulher”


Quando a aragem do fim da tarde parecia querer desmanchar o calor intenso do verão, os homens começavam a sair das tascas, tropeçando aqui e ali, segundo uma rota incerta, que os projetava para um e outro lado das ruas estreitas.
As mulheres paravam de conversar, levavam com elas para dentro de casa, à pressa, os filhos e as cadeiras baixas, deixando que a porta só se fechasse atrás do marido, que entretanto conseguira concluir o seu etilizado percurso.
Depois eram os gritos com que usa falar a dor.
Era assim em algumas casas da vizinhança, quando eu era rapaz, e as mulheres, sempre entre a dor... e a dor, nem tentavam escapar da sua sorte, para não terem de ouvir as reprimendas dos seus e dos demais.
Era como se não existisse outro fado, até àquela primavera em que chegou a liberdade, e o ser passou o parecer na escala de prioridades.
Não tive, não tenho e nunca terei a mínima tolerância para a violência exercida sobre as mulheres, seja ela física ou outra.
Abomino a prepotência e a violência de género colhida de forma perversa nas searas fecundas do medo e da chantagem, e não é por caridade que o faço, é por legítima defesa da mais pura igualdade.
Em pouco mais de um mês que leva o ano de 2019, já morreram nove mulheres às mãos dos seus companheiros.
São números que nos envergonham a todos, porque todos somos cúmplices, e expressam um retrocesso civilizacional tão grave quanto qualquer aumento da mortalidade infantil, por exemplo.
“O mar é um homem, mas a água é uma mulher. O tempo é um homem, mas a eternidade é uma mulher”.
Somos todos, faces diferentes desta mesma essência que nos faz pessoas, e é legítimo garantirmos que a igualdade se cumpra independentemente do género, da idade, da religião, da orientação sexual...
Sem “normalidade” e sem “dominantes”.
“O sol é um homem, mas a madrugada é uma mulher”.
Que avance uma nova madrugada sobre a imbecilidade que parece querer travar o tempo.

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