sábado, 12 de maio de 2018

“Cheirando a feno casado com hortelã”…


Há muito de Ary no instante em que piso a plateia da Altice Arena para assistir à primeira Eurovisão de Portugal: “cheirando a feno casado com hortelã”.
É o campo do qual sempre serei pertença, e eu, o menino que jamais deixarei que se apague em mim, “com um ribeiro à cintura”, tal qual a menina de 1971, porque o género pouco importa nestas coisas de sonhar,
Faço questão de abrir os braços, não só porque o momento me parece enorme para o agarrar, mas porque preciso de reservar espaço para que caibamos todos. Hoje, diretamente do celeiro do Senhor Domingos, em Vila Viçosa, e trinta e oito anos depois de termos acreditado que o Cid venceria em Haia, aqui estou com todos os amigos, mesmo que de todos, só cá esteja eu. É preciso "amar pelos dois", três, quatro...
A partilha dos sonhos cria os amigos eternos.
“Corram descalços rente ao cais, abram abraços”, e eu cumpro essa vontade da Madrugada de 1974 cantada em 1975.
Quem corre descalço, assim, de medos e de preconceitos, saboreia melhor todos os detalhes do caminho e não desperdiça nem o mais pequeno grão da sua história, aproveitando, ainda e sempre, para se despir do peso da idade.
Descalço e de braços despidos, como eu agora neste fim de tarde, porque o cais que muito sonhei e tanto quis, eu sei, está aqui, é meu e tem tudo, até o “vento do deserto acordado em mim”.
Os sonhos persistentes entranham-nos laivos de realidade e de pertença, e por isso eu, agora, olho em volta sentindo que tudo é meu e tudo quero e posso beijar. “Como dizer um coração fora do peito”?
O pavilhão foi-se enchendo, pouco a pouco, mas “às vezes é no meio de tanta gente, que descubro afinal aquilo que sou”, e eu sinto, hoje, de forma clara, e como muito poucas vezes, que sou toda esta gesta de tantos anos que trago impressa nos pés descalços, sou a paixão desembainhada pelos corpos que o desejo atou aos meus braços despidos, eu sou, afinal, irmão desta noite que traz “canções de todas as cores”.
O Homem sem riso repousará sob o benefício de lápides distintas e sérias, jazendo por se ter rendido ao controlo de alguém, e de se ter feito escravo desse juízo alheio.
O Homem completo é aquele que cresce sem se esquecer e sem ter vergonha de brincar.
“Eu em troca de nada dei tudo na vida”, talvez por saber que é destes pequenos nadas que se faz a própria vida.  

Sem comentários:

Enviar um comentário