sábado, 16 de maio de 2020

Fátima e uma noite vazia mas inteira



Quando era rapaz íamos a Fátima de autocarro, com as amigas e os amigos, mais os pais deles.
Na noite que antecedia a partida, as nossas mães mal dormiam porque havia que terminar de fritar os rissóis de pescada, cozer as empadas de galinha, tostar o arroz no forno, para além de cuidar da arrumação de todas as iguarias na geleira.
Ao contrário do tempo das nossas mães, que era escasso, o nosso mal se movia, e nós também dormíamos mal, mas era com aquela ansiedade de quem ainda vê longe a manhã.
Partíamos antes do sol nascer, e ali por alturas de Ponte de Sôr fazia-se uma paragem técnico sanitária para alívio das bexigas, com o género como critério e a estrada como fronteira.
Rezávamos e cantávamos durante a viagem, socorrendo-nos da Playlist que a Zinha tinha elaborado na semana anterior.
Também existia sempre alguém que enjoava por força das curvas da estrada, mas como não era doença de perigo, a coisa até servia para distrair.
Chegávamos a Fátima...
Ficávamos juntos, repartíamos o farnel em longas mesas improvisadas, bebíamos Sumol, alugávamos quartos numa pensão qualquer e depois íamos rezar... até ao almoço do outro dia.
Talvez nunca tenhamos percebido muito bem porque gostávamos tanto de estar ali, sem que a busca de tal resposta nos ocupasse muito a quota de preocupações.
Era uma paz imensa em dias de família e amigos, à sombra de Deus, no vale fecundo onde correm ribeiras frondosas e o mel silvestre nos preenche de tal forma, que nunca chegamos a sentir fome.
Na noite de 12 de maio, e no silêncio de Fátima com que o D António Marto deu mil a zero à Isabel Camarinha da CGTP, aqui sentado em casa com os meus pais, senti que o recinto do santuário se tinha finalmente rendido à evidência, assumindo ser demasiado pequeno para os tantos que somos Fátima, e de Fátima.
Portugal não cabe, definitivamente, ali.
Porque a paz dos vales fecundos e da sombra de Deus está onde nós estivermos, viaja connosco, e, naquela altura em que eu era rapaz, até viajava de autocarro entre as lancheiras e a playlist da Zinha.
É claro que por entre esse silêncio reouvi o nosso canto, as nossas gargalhadas, o rosto dos que já partiram... com saudade, estão eles e todas as nossas idades, tatuados na memória de um lugar que terá sempre a dimensão da alma de quem o procura, caminhando dia e noite, sem temer os pés.
Uma alma lusitana, imensa como o mar, porque infinitamente cheia de Deus.
O “vazio” de Fátima foi apenas uma pausa para que a sentíssemos imensa dentro de nós.


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