domingo, 21 de junho de 2020

As duas metades


Sempre que um peixe e um pássaro se predispõem a falar, celebrando o verão, o mar deixa de ser tão inacessivelmente profundo e o céu aproxima-se, definitivamente, de nós.
E quem diz um peixe e um pássaro pode dizer qualquer uma das nossas metades.
Só apreciei a chegada da estação quente até há trinta e nove anos quando a minha avó Francisca partiu no primeiro entardecer de um verão que transformou junho num mês em brasa.
Por mais que os dias se espreguiçassem, conseguindo que as nove da noite beijassem o sol, ainda que as saladas de tomate com cebola se insinuassem à mesa, ou que as conversas ao serão fossem feitas ao relento, sob a luz da lua, desapertando as memórias que o inverno fechara em baús, esvaziados agora para lá poderem caber os cobertores...
Fiquei sempre dividido.
As mais ou menos doces, e irrequietas metades de nós.
A que se deleita e a que chora, a descrente e a que transpira de fé, a que gosta de partir e aquela outra, que insiste em ficar.
Há muito em mim que mora nas profundezas do mar, e outro tanto que habita o espaço entre a Terra e o céu, traçando linhas irrequietas sob o punho da mais insaciável liberdade.
E há os dias em que decido celebrar o verão, reunindo-me no recanto discreto de instante insuspeito, como o pequeno almoço de domingo, à mesa, e à conversa com a minha mãe.
O peixe, o pássaro... e o Homem, que, assumindo-se inteiro, abraça o universo no trago breve de um gesto só.

Sem comentários:

Publicar um comentário