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Resistir

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Há ruas nascidas para serem rios de abraços, e olhares, cúmplices de abrigos, que, sem reservas, e de forma gratuita, nos oferecem uma casa, com janelas, aonde possamos morar. As palavras correm com a generosidade fluida das fontes, e nós guardamo-las em cântaros de barro, ao lado do mel, porque da mesma raiz nasceram para virem matar-nos a fome e a sede. Coabitam elas, e o nosso saciado sossego, em poiais de laje, erigidos como altares no recanto da casa de onde se avista a lareira, que se acende muito cedo, de madrugada, com restos de azinho, e nos retira as dores ao mesmo tempo que nos aquece o pão. Em dias eternos, em que nem a chuva consegue distrair-nos, e roubar-nos o sol. Tentei ser fiel à minha terra, Vila Viçosa, partilhando convosco o tanto que ela é para nós. Não consegui, por pura insuficiência de jeito e inspiração. Será muito mais do que tudo isto. E por este tempo difícil em que as ruas quase secaram, os olhares se “enfeitam” de interrogações, e as palavra...

Não existem flores maiores que a esperança

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  O meu saudoso professor de Português, Padre João de Deus, explicava-nos a diferença entre o romantismo e o realismo, nas aulas do 11º ano da Escola Secundária de Vila Viçosa, socorrendo-se do exemplo de um casal. Em ambiente romântico, e em plena lua de mel, passeavam os dois no campo quando ele a alerta para o perigo de uma poça de água. - Minha flor nascida do melhor do tempo, procura o nenúfar que te segure o passo para não molhares a beleza desse pé delicado. Trinta anos depois, já imbuídos do melhor realismo, volta o casal ao mesmo sítio, e a mulher recorda: - Lembras-te desta poça de água e da frase tão bonita que então disseste? - Epá, deixa-te lá de parvoíces e não ponhas os chispes na água, porque ainda acabas toda encharcada. Os dias enfeitados de flores, frente a frente com o pragmatismo absoluto, revestido de alguma rudeza, parecendo-me a mim, que também aqui, nos estilos literários, tal como na vida, que a virtude se encontra no centro. No centro e no b...

Não existe viagem que não seja para chegar a casa…

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Quem é do campo e desfrutou de andar descalço, sabe ler os instantes em que a terra reza, para que o Céu, que em si mesmo é generoso, possa acudir-lhe sem demora, e matar-lhe a sede. De um modo suave, com a tranquilidade própria de uma sexta-feira à tarde, intrometo-me neste diálogo, cruzando o altar informal que é o Alentejo. Para chegar a casa, porque não existe viagem que não seja para chegar a casa, ainda que às vezes, os nossos passos se dirijam para os antípodas do sítio que tem um telhado a proteger-nos o leito, as pantufas e a escova de dentes. A nossa morada anda rabiscada em tantos e tão díspares lugares, sendo imperioso, tantas, e tão dolorosas vezes, irmos até lá para que se dissipem as dúvidas e afinem as coordenadas. Tenho inveja do gato e saudades dos dias sem máscaras, e de quando os lábios partilhavam o seu deleite, ou não, com as palavras, embrulhando-as com a festa ou o vazio que a alma lhes ditava. Tenho saudades do bom senso, da lucidez da partilha, e dos...

Intermitências de “Amigos de Alex”

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A nossa geografia, que é gémea siamesa da nossa história, é a soma das coordenadas de todos os lugares que nos inventaram, com destaque, mais do que legítimo, para aqueles onde fomos felizes. E as memórias que desse chão guardamos, desmentem a aridez do pouco, que, às vezes, se vê, elevando-o ao estatuto de templo sagrado. Hoje, durante todo o dia, fui acompanhando, de forma intermitente, o programa da RTP1 sobre jardins históricos, transmitido a partir do Paço Ducal de Vila Viçosa. Fiz a foto num desses momentos, não porque o cantor esteja algures entre as casas das pessoas, escravas ou não, que serviam o duque, e mais tarde, o rei, mas porque ele está situado exatamente no ponto que unia a sala 7 com o acesso ao bar e às salas do pavilhão que abrigava a sala de professores da minha escola secundária. O edifício à esquerda era o ginásio, inventado a partir do picadeiro do Paço, e ao fundo vê-se o portão por onde entrávamos. O lago não existia, porque foi aqui instalado nos anos ...

Joaquim...

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  Sempre que jantava em casa da avó Natividade, na casa da Rua da Pascoela, ela ia levar-me a casa, depois, ao serão, subindo pela Rua de Santo António. Nesse passeio noturno, que no inverno tinha o prazer de uma das pontas do seu xaile, reparávamos na falha, e no reboco, de uma das fachadas do lado direito, que tinha a forma quase perfeita da cara de um rapaz. Daí até casa, inventávamos histórias que tinham como herói aquela criatura inventada a partir da fragilidade da cal. No outro dia, cinquenta anos depois, passei pela Rua de Santo António, e reparei que a “cara” do rapaz ainda lá está, embora um pouco enrugada, por mão de uma pintura qualquer. Esta semana estará à venda nas feiras do livro de Lisboa (Pavilhão D03 / Alfarroba) e do Porto (Pavilhão da Ibook), e nas livrarias nacionais, virtuais ou físicas, uma coletânea de 400 escritos da minha autoria, que por serem tão assumidamente da minha alma, ganhou o nome de “Joaquim“. Chamam-lhe poemas, mas eu vejo-os apenas ...

Pensamentos...

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A nossa casa será sempre o sítio onde a alma nos pede para sentar, assim como esse beijo que não tem prazo de validade, entre outros importantes motivos, porque nele, o tempo não se sente passar. E em ambas as coisas, chão e beijo, não importa, por certo, que alguém, do lado de fora, nos acuse, e se ria de nós, porque montámos a tenda no deserto. Vê mais quem sonha, do que quem investe no oftalmologista, e se foca na visão imediata, e muito de perto. Em tudo onde a alma se cumpre, jamais se morre de fome, ou de sede, porque acreditar é ter trigo ali ao pé, e a fé traz sempre um rio, que corre solto, vida fora, sem margens, sem abismos e sem rede. Gosto de me sentar no silêncio, sentindo a tarde, e de puxar o meu rio, atando-o ao pescoço, como se fosse um cachecol, sabendo também, que o Homem é a nascente do dia certo, por ter na inspiração um interruptor capaz, de a qualquer momento, lhe trazer o sol. A minha ideologia será sempre aquilo em que acredito, sem coordenadas defin...

A mesma idade...

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Dizem ser uma das tardes mais quentes do ano, e por isso esperámos pelas sete horas para virmos até aqui, aos campos de futebol de Vila Viçosa, ao carrascal. Eu e o meu sobrinho João. Estacionei o carro de costas para a Escola Secundária, e o termómetro marca 38 graus. Só desfrutei destas instalações no meu décimo primeiro ano, mas a tempo de numa manhã de fevereiro de 1983, termos ordem para sair das aulas e podermos desfrutar da neve. A primeira vez que eu via nevar. A minha amiga Lurdes Duarte foi ter connosco, e fez-nos uma foto no exato local onde agora estou estacionado, e a transpirar. Em Vila Viçosa, no carrascal, como na vida, os mesmos detalhes “geográficos” podem ser tanta coisa: inverno e verão... Soube hoje de manhã que partiu a Fernanda Lapa, e não sei porquê, entre este calor e as memórias da neve, penso em como lhe estou infinitamente grato pelas peças tão bem encenadas que me ofereceu. No princípio dos anos noventa, quando os muros tinham caído e nós trin...