sábado, 17 de junho de 2017

Capri


Os traços são cúmplices das palavras, cumprindo o desígnio comum de pintores e escritores, no "desenhar" das suas muitas histórias e do eclodir da poesia.
Henrique Pousão, pintor Português da segunda metade do Século XIX, é um dos meus favoritos, e o facto de ambos termos nascido em Vila Viçosa, terá por certo facilitado essa minha aproximação aos seus trabalhos, mormente uma série pintada nos anos que viveu na ilha de Capri, algures por 1882.
Para mim, essa ilha Italiana próxima da costa de Nápoles, foi e será sempre a ilha de Pousão, e esta semana, visitando-a, levei na lembrança os quadros, indo em busca do artista.
O barco entre Sorrento e Capri é muito veloz, deixando atrás de si uma estrada branca de espuma, que enfeita o mar no seu esplendor azul.
Acerto o tempo retirando cento e trinta anos à velocidade do barco, para poder imaginar um homem magro, de chapéu de abas largas e calças de linho, a desembarcar num cais onde imperam pescadores e vendedores de limões.
As bancas onde agora se oferecem passeios aos turistas, “pisam” o mesmo chão onde um carro puxado por animais transporta o pintor pela encosta acima, até à casa onde ficará instalado.
O empedrado das ruas, os cheiros do campo, e sobretudo, as casas brancas de Capri, lembrar-lhe-ão por certo, o Alentejo, e a casa que o primo Matroco tem na Rua de Santa Luzia, em Vila Viçosa.
Nesta manhã quente de Junho de 2017, o escritor traz no i-Phone a reprodução dos quadros, e cedo pede ajuda ao Guia Turístico:
- Consegue ajudar-me a encontrar esta rua?
- É a Via Le Botteghe, e eu levo-o lá.
Mas o Guia ainda confirma com o dono do restaurante:
- Que rua é esta?
- A Via Le Botteghe. Não pode ser outra.
Tinha a pista certa.
Passo a manhã em Anacapri e aproveito para visitar a Casa Museu de Axel Munthe, médico e escritor Sueco que aqui viveu na sua "Villa Saint Michelle", depois de se instalar ali em 1888.
O silêncio no jardim, imune aos vendedores que cativam turistas com roupas, sandálias e Limoncello, faz-me regressar ao Século de Pousão, e eu consigo "encontrar" o artista, por ali, tomando a luz imensa que assalta todas as janelas e as varandas rasgadas para o mar.
Dali vejo bem as casas brancas de Capri enfeitadas pelas catos que habitam estas terras do sul.
Depois, já ao princípio da tarde, chego finalmente à "minha rua", a Via Le Botteghe, e vou-me guiando pelos arcos e as janelas, procurando os ângulos certos guardados nas obras do meu conterrâneo.
Esta rua, que tem uma largura pouco maior que a dimensão do meu corpo com os braços esticados, é preciso ser despejada dos turistas e dos comerciantes de agora, para que eu consiga olhar o pintor com o seu inevitável chapéu, pintando uma menina descalça que brincava por ali sob os arcos brancos da rua onde nasceu.
O homem da fruta passara de manhã, e avisara que o dia está bom para um passeio até ao topo da ilha. Oferecera-se como guia, e sairão esta tarde depois do almoço.
As gentes do Sul nunca usam ter pressa, e a rapariga deixa-se estar assim, quieta, enquanto o pintor roga às tintas que façam justiça à luz e às sombras perfeitas das ruas de Capri.
Vejo claramente o Henrique Pousão, por ali, e sorrio-lhe. Os pintores e os poetas partilham o mesmo chão, enquanto enfeitam as tardes com os traços e as palavras das suas histórias.
Os pintores e os poetas desmancham o tempo, no privilégio que advém da poesia que partilham: a eternidade.

(Os quadros de Pousão que aqui reproduzam entre as minhas fotos podem e devem ser contemplados no Museu Soares do Reis, na cidade do Porto).

Sem comentários:

Enviar um comentário