sábado, 24 de junho de 2017

Pedrogão


As árvores, que insistem morrer de pé, permanecem como guardiãs do silêncio que deixámos atrás de nós.
Sim, nós partimos com a urze e os pássaros para a viagem dos poetas, dos Homens que se agarram ao sol e não o deixam fugir no fim de um sábado qualquer, preferindo puxar sobre sim o manto de um céu azul e permanente.
Quando olharem a cinza que deixámos sobre os montes, não solucem jamais os nossos nomes, o fogo que se vê e se cola à pele, não incendeia e não queima a alma, apenas o outro, o fogo feito das chamas transparentes do amor, consegue fazê-lo, mas sempre para nascer e para poder voar.
Nós somos a alma, e a alma permanece.
Quando olharem as fontes, não as culpem de omissão no juízo de um qualquer tribunal, nós trouxemos o canto fresco das águas atado aos versos dos poetas, e sentimo-lo enquanto rasgamos o tempo batendo as asas.
Não chorem por nós, e nem de saudade da urze, da copa verde das árvores e do canto dos pássaros. Se disso sentirem tentação, olhem o céu e pensem que ninguém morre, a ausência e o silêncio são tão-só uma ligeira dissonância impressa no tempo, desfasamento que será sempre breve e transitório no contexto da eternidade do universo.
Logo o tempo se acerta para nos sentirmos num abraço… com aroma de urze.

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