sábado, 13 de janeiro de 2018

À conversa com as azedas numa manhã de Janeiro de 2018


A chuva já resgatou as azedas da escuridão da terra, e têm um assumidíssimo tom amarelo quase fluorescente, as bermas do meu caminho de todos os dias.
Não resisto e espreguiço o olhar para longe, para o campo que ainda resta, aqui, um privilégio na periferia operária da cidade…
Quem é pequeno constrói palácios com nichos para guardar do mundo as suas vaidades e o seu poder, e quem é efetivamente grande não cabe entre quatro paredes, por maior que seja o espaço que elas encerram; assumindo o universo como a sua casa, e entretendo-se à conversa com as flores do campo, e com as árvores, desmentindo, dessa forma, o frio intenso das manhãs de Janeiro.
Os tetos elegantemente pintados escondem o sol, e os nichos dificultam o acesso ao mais pequeno dos abraços.
A simplicidade é a antítese das fronteiras e das grades.
Se um dia eu conseguir aproximar-me um pouco da dimensão da gente grande, abandonarei as avenidas onde os mantos opacos do veludo da autoestima exibem o ouro dos seus bordados, correndo então descalço no campo molhado pela chuva, e tomando para mim o acre sabor das azedas.
Cantando, rasgarei claraboias à superfície dos silêncios mais circunspectos, sentindo que as flores tomaram do astro rei, a sua cor, apenas para virem enfeitar o meu caminho.
Quem rodopia sobre si mesmo condena-se a uma prisão, por entre a doce ilusão de que se move, esquecendo-se de que só aquele que corre é capaz de se aproximar da madrugada, e assim, reinventar-se, mudando a História.

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