sábado, 20 de janeiro de 2018

Os rios da minha idade


Aí, onde as águas se fazem espelho e estrada, reinventei-me e reinventei cidades para onde “caminhei”, depois, usando o vento ou os remos, às vezes lutando contra a força da maré.
Esta semana, enquanto regressava ao sul, fui remexendo as lembranças e sentindo os “Mostrengos” que moram na bruma dos dias… e dos rios.
O autotransplante de medula que isola um amigo entre quatro paredes, assépticas, de vidro; a radioterapia de um outro e as máquinas intimidatórias que enfrentamos com máscaras que nos metem medo; a demência e a velhice dos nossos pais, e as fraturas que lhes revelam as debilidades; uma amiga que voou para longe tentando revestir de esperança, a dor da mãe que agoniza…
“Aqui ao leme sou mais do que eu”… muito mais, mesmo, porque todos aqueles que amo são partes de mim, que às vezes me doem, assim, no dilema que divide os cabos entre as tormentas e a boa esperança.
No silêncio do meu carro resgato da fé um assobio, e enquanto me vejo e revejo nas águas do meu rio, vou dobrando as folhas brancas de todas as incógnitas, transformando-as em barcos de papel, subindo, depois, a bordo para remar forte contrariando o vento e a maré.
Se um dia quiserem medir a minha idade, façam-no também avaliando o quanto resisto, para que jamais se apague ou afaste, a minha cidade.
 

(A foto é do José Manuel Marques, meu querido amigo e genial fotógrafo, a quem expresso um especial agradecimento).

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