sábado, 6 de janeiro de 2018

Quase meio-dia…


Quando Cristo se eleva no altar é quase meio-dia, e o meu ajoelhado silêncio destapa o desabafo do vento que sopra desde o repouso dos meus mortos, à minha frente e atrás da Senhora da Conceição, seguindo depois para lá da muralha do imenso castelo, por onde eu sairei daí a pouco, de braço dado com os meus pais.
Em Vila Viçosa, com o sol a pique, eu serei sempre esta ínfima partícula do tempo, algures entre o Céu e os dias que me esperam.
No final de 1973, a dificuldade em arranjar trabalho levara o meu pai até Lisboa, para a secção de peças da firma Baptista Russo, a Cabo Ruivo.
Se tudo lhe corresse bem, nós juntar-nos-íamos a ele, mais tarde, concretizando a mudança da família para a capital, o que não desejávamos.
Tal não chegou a acontecer, porque a 1 de Junho de 1974, um sábado, o pai iniciava funções de escriturário na Fundação da Casa de Bragança, em Vila Viçosa.
Desse Natal algo amargo de 1973 ficaram as memórias e um brinquedo oferecido pela empresa: um carro de emergência, a pilhas, que, para além de andar para a frente, consegue recuar sempre que bate nos pés de um móvel ou na parede. Uma viatura BMW, claro, igualzinha às donas das peças que o pai geria no armazém.
No último dia útil de 2017, estou com os meus progenitores em Vila Viçosa, quando após mais de 43 anos de serviço e com 77 de vida, o pai Artur finalmente abandona as suas funções no escritório da Casa de Bragança.
Por detalhes de logística, nesse dia, vemo-nos a descer a Rua de Três e a passarmos à porta da casa onde vivíamos então, e aonde eu nasci. Seguimos no meu carro, que por acaso é... um BMW.
Tenho quase a certeza que no longínquo dia 1 de Junho de 1974, entre a liberdade que chegara e a esperança de uma primavera finalmente nossa, talvez nenhum de nós conseguisse antecipar, sonhando, aquilo em que a vida nos tornou. Não o que temos, que isso só é relevante para as coincidências; mas o que somos na família a sete que nos tornámos hoje.
Do saco que o pai trouxe do escritório com os seus pertences nessa sexta-feira fria de 2017, retirei o carimbo com a sua assinatura, para guardá-lo na gaveta das relíquias da minha história, não longe do carro do Natal de 1973. Um carimbo para me recordar como é bonita a honestidade “tatuada”, assim, sobre todas as horas.
Em Vila Viçosa, com o sol a pique...
Eu serei sempre esse ponto ínfimo e azul entre o Céu e o futuro, quando Cristo se eleva no altar para nos lembrar que a fé, afinal, é o antídoto dos impossíveis.

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