sábado, 10 de fevereiro de 2018

Os malmequeres e o mar


Talvez não exista nada mais intensamente nosso, e tão Lusitano, quanto o assumido namoro dos malmequeres com as ondas do mar.
Portugal, na definição que lhe advém da alma, é o imenso denominador comum entre o campo e o oceano; duzentos quilómetros de intersecção entre um e outro, onde, contrariando o poeta, nem o mar e nem a terra acabam ou começam: vivem ambos, intensa e eternamente.
No alto de uma colina escutando o vento, eu vejo os malmequeres que reluzem imitando o sol, enquanto as ondas se espreguiçam languidamente em espuma, num cortejar constante.
E o vento, que escuta de um e de outro, o desejo, traz-me versos que eu guardo nesse bloco imenso e transparente que é o pensamento.
O desejo que nasce da alma e abraça o corpo, não poderá nunca ser pecado. Pecado, sim, é o juízo humano de distanciar a alma do corpo, separando irremediavelmente aquilo que Deus uniu.
Como as flores tão despudoradamente nascidas dos resquícios do fogo, os versos enaltecem a morte de todas as máscaras, e de como sobre as suas cinzas, guardadas numa quarta-feira, o amor é capaz de eclodir, verdadeiro, contrariando a voz taciturna de qualquer sibila que o ameaça.
As cinzas e amor, como este, perfeito, que une na Lusitânia os malmequeres e o mar; as cinzas e o amor celebrados esta semana no mesmo dia: uma modesta quarta-feira do Fevereiro que ora passa.

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