sábado, 24 de fevereiro de 2018

Raro é o sonho... Aqui


Solto da guita que o manteve preso, por instantes, à minha mão, o pião rodopia, finalmente, sobre o chão de terra que a insistência dos passos dos Homens roubou ao jardim.
A vida goza sempre de uma dupla face, e a monotonia que persiste na rotina da gente é capaz de inventar terreiros para podermos brincar.
Ali mesmo ao lado, num canteiro desenhado pelo buxo, e aparentemente indiferentes ao pião, as rosas vermelhas discutem com as amarelas, atiçando-se mutuamente os espinhos; divagando sobre a magna importância do sangue ou do sol, que lhes dão cor, não se entendendo sobre qual tem o estatuto de mais nobre e imperial.
Um pássaro que as sobrevoa baixinho sorri chilreando, enquanto uma borboleta de asas de papel se afasta lentamente para o retiro dos malmequeres, cansada de tamanha e fútil discussão.
Eu baixo-me, apanho o pião que devolvo à guita e ao bolso, deitando-me de seguida no tufo de relva que me parece mais confortável, como quem encara o céu de frente e olhos nos olhos. O pássaro vê-me assim, e aproxima-se, voando, persentindo-me disponível para dois dedos… ou duas asas de conversa.
Os Homens como eu, que falam com os pássaros, são estranhos, mas gozam da maior probabilidade de aprender a voar; e assim, dispensando os passos que calcam o viço do jardim, permitem que as rosas se distendam e brilhem em todos os seus tons, que de sangue e de sol se faz a vida, sem escala e em igual medida.
Eu sei, o pião jamais conseguiria rodar ali, mas que contrariedade é essa quando comparada com a cama de relva, perfumada, que me faz rodar a mim mesmo, à boleia da superfície da Terra, olhando o imenso azul.
Aqui, neste jardim onde brincamos com o tempo, o impossível cede sempre ao sonho, e as palavras ditas são os olhos de quem não vê, o colo oferece passos a quem não anda, e os beijos falam por entre a mudez ou as vozes roucas.
Quando nos olhamos uns aos outros e nos atamos num abraço, sabemos que quanto mais apertado ele se fizer, menor será a probabilidade de podermos reparar que dentro dele, “falta” algo a qualquer um de nós.
Aqui, onde as rosas respiram tranquilas e as borboletas regressam em paz do seu passeio até aos malmequeres, nós sabemos que a felicidade é coisa de ser, e aquilo que se faz e que de nós de vê, são detalhes dos milhões de “terreiros” que o corpo inventa para que a alma possa cumprir-se e brincar com o Céu.

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