sábado, 3 de fevereiro de 2018

Um chá na lua


Algures pelos finais dos anos setenta e princípios dos oitenta do século passado, a taberna do primo "Ai - ai" (sim, fixem mais uma alcunha das muitas que há em Vila Viçosa), local onde a minha avó Natividade ia tratar da matança do porco, preparando-me uns chouriços mínimos para eu brincar; mudou de estatuto, de nome e de dono.
Fecharam-lhe a porta, colocando a dita à mercê de uma campainha, e a "Colmeia" passou a ser o primeiro "pub" da minha terra, com a Rua das Vaqueiras a ganhar ares de Rua da Atalaia e Bairro Alto, as coordenadas do saudoso "Frágil".
Como os bares são como as pessoas, sendo ambos vítimas do velho hábito de preencher aquilo que não se conhece com tudo o que há de mais escabroso, e às vezes, nos antípodas do que é efetivamente a verdade, existiam localmente as versões mais apocalípticas sobre, afinal, quase nada mais do que apenas uma bola de espelhos numa sala na penumbra.
Como é que o comum dos mortais poderia entender facilmente o efeito alucinante e mágico de uma bola de espelhos pendurada de um teto?
Jamais. Mas, para nós que víamos a série "Fame", tal engenho constituía uma verdadeira autoestrada transatlântica até à mais famosa escola de artes de Nova Iorque.
Era atestado e prova de ser moderno, sobretudo para quem vivia a duzentos quilómetros dos “Porfírios”.
No outro dia, folheando uma revista com os personagens da referida série, dei-me conta de que só depois de quase quarenta anos, consegui finalmente encontrar a personagem que melhor me transporta para a dita: sem qualquer jeito para cantar ou dançar, só me restava mesmo o professor Shorofsky, que tinha óculos, barba branca e ensinava literatura.
É verdade, às vezes para cumprirmos o sonho é necessário fechar as portas ao óbvio, sujeitarmo-nos ao mau juízo dos outros, e fazer uma revolução, mesmo que só com uma bola de espelhos. Ainda que possa tardar muito, a gente acaba sempre dentro desse "filme" que a alma pede.
Depois, eu que pássaro me confesso, descanso calmamente entre as estrelas, tomando um chazinho na lua, ali mesmo ao lado dos girassóis que semeei e vou dizendo.

(Agradeço o magnifico desenho ao meu querido amigo Raúl Pestana)

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