sábado, 4 de agosto de 2018

A esquerda e a direita...


Eu tenho amigos de esquerda que afirmam que a honestidade é um exclusivo da sua área política. Por acreditarem convictamente nesse pressuposto, alargam o conceito de honestidade até ao ponto em que não trabalhar e fazer vida de luxo à custa de amigos é a coisa mais natural do mundo.
Mas eu também tenho amigos de direita que consideram que a guerra colonial foi uma oportunidade extraordinária para que uma geração de homens pudesse ir conhecer África, afirmando que as mortes ali ocorridas, em número desprezível, foram consequência de acidentes de viação.
Uns e outros defendem cegamente as suas damas até à exaustão, não se dando conta da linha do ridículo que às vezes pisam de forma descarada, aplicando-se em duelos que eu até poderia considerar ideológicos se tivessem por raiz algum ideal por entre a teimosia.
Como pude observar ao longo da semana que passou, estes conflitos bacocos situam-se ao nível dos “Jogos sem Fronteiras”, trazendo a glória por um instante mas não deixando nada para a História.
As palavras que não constroem nada são entulho despejado para as bermas do caminho.
De igual forma, uns e outros reclamam também o título de reis da democracia, não reparando que a intolerância que manifestam mata esse título logo à partida.
E a intolerância é a máscara de certeza que utilizam aqueles que por serem tão fracos não conseguem sequer argumentar de forma inteligente com os que defendem ideias diferentes.
Para a esquerda e para a direita, como nos contos da carochinha, o bem está sempre do seu lado, estando o mal, invariavelmente, no lado oposto. Se por acaso existirem provas contra algum dos seus, já sabemos o que se passou: foi uma cabala montada com a ajuda dos jornalistas.
O que conseguem com esta atitude?
Que os vigaristas que habitam um e outro lado têm sempre gente honesta (mas distraída e teimosa) a defendê-los.
Qual é a glória suprema para a esquerda ou para a direita?
O poder, independentemente do seu custo, e os erros de governação e a incompetência têm sempre um bode expiatório: o governo anterior. O pior de Costa é culpa de Passos, o pior de Passos foi responsabilidade de Sócrates, assegurando-se também por essa via, que os incompetentes têm sempre quem os defenda.
Como tenho amigos de um e de outro lado, eu acabo por discutir com todos, e de todos receber o título de aberração ideológica.
Os de esquerda vêem-me como um Salazar que vai à festa do Avante e gosta de ler Saramago. Os de direita olham-me como um Karl Marx que vai á missa e gosta de viajar até Nova Iorque para comer ostras num bar da Central Station.
Confesso que não me importo com um ou outro título. Há muito que divido o mundo com a linha do equador no ponto onde alguém deixa de ser honesto por ser o seu contrário.
Tenho a noção de que também erro muitas vezes na minha análise, mas jamais assentarei o julgamento num “porque sim” ou “porque é um dos meus”.
Interessa-me muito mais o conjunto de valores de cada um do que a “pulverização” ridícula com que alguém se apresenta, numa espécie de código de barras para poder entrar em determinados círculos e cumprir os seus interesses.
O sinal da cruz não faz um santo, da mesma forma que uns pés sujos de lama não fazem um herói trabalhador.
“Se não te afirmares convictamente de esquerda jamais levarão a sério a tua escrita”.
“Essa mania de defender a união entre pessoas do mesmo sexo e a possibilidade de adoção, é uma mancha que te fecha muitos púlpitos e te mancha a reputação”.
Habitarei um território que poderão achar que é de ninguém ou de nada, mas se é onde me sinto bem, é aquilo que importa. Umas vezes serei muito daquilo que dizem ser de esquerda, outras passar-se-á o mesmo com coisas do território da direita. Mas serei sempre eu.
Desculpem-me pelo facto da prosa desta semana ser um pouco menos poética, mas confesso estar cansado de ver e ler disparates assentes em pressupostos ridículos e fúteis, quando existia tudo para que o nível subisse em respeito e interesse até ao ponto em que o mundo avança.
De saída sempre vos digo que se eu pudesse fazer um negócio em Lisboa, comprando uma casa velha, reabilitando-a para depois a vender por muito mais dinheiro, avançava sem pudor algum.
A diferença é que eu não sigo catecismos e não tenho quaisquer reservas de âmbito ideológico. Assumo-o inteiramente.

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