quarta-feira, 20 de abril de 2016

E por mais que as nuvens insistam em desenhar monstros à superfície do mar…



À minha frente, a imensa montanha riscada pelos matizes de verde e pelas hortênsias, denuncia o vulcão por ora adormecido sob o silêncio azul do manto da lagoa.
O fogo... a essência de São Miguel.
O avião já se faz à pista adornando a descida com uma vénia ao Senhor Santo Cristo no seu altar barroco de basalto e cal.
E por mais que as nuvens insistam em desenhar monstros à superfície do mar, eu sei que este Atlântico sob os meus pés preservará sempre a sua essência feita de água e do sal que perfuma, incessante, as manhãs de bruma nas praias destas balsas de terra e fogo, pedaços flutuantes de Portugal.
As nuvens, tal como às vezes sobre os nossos dias, incapazes de calarem a essência de poetas de onde se desprendem lendas e detalhes de encantar.
Aterrámos finalmente, e a D. Maria, sentada ao meu lado, assinala a travagem com o sinal da cruz, cumprindo no olhar a essência que lhe vem do mar.
Só quem não conheça a saudade pode estranhar que se chore assim.
Contou-me há pouco que passou a noite a voar desde o Canadá, e teve de ir espreitar o Tejo porque os voos directos estão esgotados. Todos querem chegar a tempo da festa do Santo Cristo.
- Vivo há mais de quarenta anos em Toronto e nunca falho.
Ajudo-a com a mala pesada antes de se despedir de mim e de desejar boa sorte para o meu trabalho.
Gosto da gente que traz a terra onde nasceu colada à voz. E mesmo ao fim de quarenta anos...
- "Adeis mê senhô".
E o fogo do vulcão resplandece na voz e na alma da gente que por ser poeta ousa saber crer nos milagres.

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