quarta-feira, 1 de junho de 2016

Enquanto existirem palavras eu jamais viverei sem flores, sem um barco ou um avião...


Enquanto existirem palavras eu jamais viverei sem flores, sem um barco ou um avião.
E mesmo se a tinta secar e o papel persistir branco pousado sobre o tempo, eu moldarei as suas asas com a liberdade de onde brotam os meus versos, construindo uma aeronave que terá na forma e na propulsão quase tudo daquilo que eu sou.
As casas vazias e sem gente são o privilégio de brincar com o sol, colhendo das sombras que ele desenha sobre as paredes, o tecto ou até o chão, as histórias a que a pobre vidraça jamais se opõe desde que dispensámos as cortinas.
Como sempre…
Por volta das cinco da tarde a tia fará a limonada num jarro de louça em tons de caramelo que comprou ao contrabandista que visita clandestinamente o casão ao lado do nosso quintal e que também traz o “Cola-Cao” desde Badajoz; o tempo aqueceu e a porta do congelador do velho “Kelvinator” espreguiçar-se-á perante a minha vontade de um gelado feito de pudim “Predilecto” nas formas quadradas e com um palito a fazer de pau; talvez corra uma brisa fresca na Mata e no Rossio antes de nos sentarmos tranquilamente para jantar porque hoje passará a Marcha e a rua celebra o São Pedro com flores de papel que foram feitas ao serão.
Flores que nos beberam as palavras numa roda cúmplice do luar, flores como o meu avião…
Mesmo que possa tardar, esperarei sempre que Junho chegue para me despir a idade. Entre memórias e fé, tenho mundo suficiente para nunca desistir de ser criança.    

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