quinta-feira, 26 de maio de 2016

Corpus Christis



Esta foto foi tirada na tarde de 21 de Junho de 1973 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, imediatamente após a procissão do Corpo de Deus.
Foi o dia da minha primeira comunhão e tenho um diploma assinado pelo celebrante, o saudoso Padre Joaquim Reia, tenho uma edição dos Evangelhos e uma medalha que foram oferta da minha catequista, a queridíssima e inesquecível D. Mimi Lisboeta.
A túnica branca era emprestada a todos pela paróquia e apagava assim as diferenças com que nos vestia a condição de cada um.
Juntámo-nos de manhã na Igreja de São Bartolomeu e saímos depois para a Igreja de Nossa Senhora, no Castelo, dois a dois e de mão dada, sendo meu inevitável companheiro de percurso o Manuel. Quem mais poderia ser?
A fila era imensa e atrasava-se sempre porque um de nós os dois perdia os sapatos e tinha de se agachar para voltar a calçá-los. Nós crescíamos rapidamente e as mães compravam sempre os sapatos com alguma folga.
Depois da missa fomos todos até ao refeitório do Seminário de São José beber um chocolate quente, a que chamávamos cacau, e que era feito com um preparado comprado na Pérola Calipolense, a mercearia mais famosa e versátil da nossa terra.
Em ano de cinquentenário sou especialmente assaltado por estas memórias.
Ressalta a saudade daqueles que já partiram, e que muito mais do que os sapatos nos ofereceram uma muito válida proposta de rumo para os nossos passos.
Fizeram-nos maiores pela fé que semearam e semeiam em nós, mostrando que somos assim iguais aos olhos de Deus, naquilo que importa, na essência de ser gente.
Corpo de Deus?
Cada um de nós será uma célula; viva pela verdade, rica pelo amor e essencial pelas diferenças em tudo aquilo que nos faz únicos.
Uma célula que respira, pensa e fala de um jeito que jamais oprime a alma.
Pela verdade, pelo amor e pela diferença...
Pelo que é da fé, muito mais do que por quaisquer outros critérios de agremiação de natureza social ou mundana.

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