quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

E os “Judas” que nunca se “enforcam”…


Exceptuando o contexto litúrgico e alguns enterros do entrudo realizados numas quantas localidades, a verdade é que a comemoração da Quarta-feira de Cinzas não é algo que se veja muito por aí.
Eu acho que a principal razão se prende com a interminável Via Crucis e a contínua Quaresma de jejuns onde nos obrigam a passar o tempo.
Jejuns do corpo e sobretudo da alma, naquele estado em que já nada se estranha.
Vejamos…
O fim-de-semana do Carnaval, supostamente de folia, é a estação perfeita para anunciar que “Portugal cai pela enésima vez” com a cruz da Economia sobre os ombros e com um “Simão de Cirene” em versão União Europeia que cobra demasiado para nos “ajuda” a chegar… ao Calvário, que é afinal onde tudo isto sempre acaba.
- Classe média toma lá mais austeridade. Levas com uma folga no recibo de ordenado e vai gastá-la na Galp.
A multidão divide-se e inverte os papéis. Os que antes cantavam “Grândola” agora assobiam (para o lado) a “Mula da Cooperativa”; e vice-versa.
Pôncio “Costa” Pilatos lava as mãos e culpa “Caifás Passos”, mas o certo é que a coroa de espinhos em versão “Lagarde” já ninguém nos tira.
Começamos a ficar habituados a ela e às vergastadas:
- Não andem de carro, não fumem e não recorram tanto ao crédito…
Toma lá o rótulo de caloteiro e vai viver ao nível das tuas possibilidades, ou então selecciona algum amigo que faça de “Verónica” e que te desafogue o rosto com uma toalha, perdão, envelopes grandes cheios de notas.
Por desespero pedimos de beber às “Mulheres de Jerusalém” ligando a televisão.
Em vão.
Já ninguém nos distrai por entre o epíteto de “esqueletos frágeis”, pobres criaturas a necessitar de Calcitrin e Cálcio Mais; sabendo que mesmo assim, o melhor a que conseguiremos é ficar igual à Serenela Andrade.
Deus nos livre.
Chamam-nos fraquinhos e… novamente caloteiros:
- Você por certo terá uma conta para pagar. Vá lá… ligue o 800 300 400 e vai ver como a sua vida muda.
Pois muda…
É o sorteio das nossas pobres vestes em números de valor acrescentado mais IVA.
E o calvário logo ali, a cruz, os pregos…
Para quando a Ressurreição?
- Nós tentámos tudo mas os que estiveram antes de nós puseram uma pedra demasiado pesada sobre o “sepulcro”.
Já ouvimos isto tantas vezes…
E entre negações antes (ou depois) dos galos cantarem, o problema persiste porque nesta versão os “Judas” nunca se enforcam, antes pelo contrário, guardam as moedas, fazem um restyling enquanto atravessam o deserto, e voltam logo que possível para cumprir aquilo que melhor fazem: a traição.
Dizem que é o ciclo do poder e é possível que sim; nós acabamos por andar sempre à volta do mesmo, cruxificados entre “ladrões”… à esquerda e à direita.

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