sábado, 15 de janeiro de 2011

Norte e Sul, ou tão-somente PORTUGAL

Por motivos profissionais tive esta semana que me deslocar ao Porto e ficar por ali dois dias. Não faço nenhum sacrifício, o Porto é uma cidade fantástica.
Ao deslocar-me a uma loja para fazer uma compra, porque o acto de embrulhar estava difícil e porque eu detesto o silêncio e não consigo deixar de meter conversa ao estilo “político em campanha”, lá fui dizendo à simpática senhora que me atendia, que para mim é sempre um prazer fazer compras no Porto.
Ao que obtive como resposta:
- Só podia mesmo. Então se está habituado à antipatia de Lisboa, não podia ser de outra maneira. E aí pensei:
- Pinto da Costa ataca de novo!
Sem querer entrar em guerra, até porque já tinha pago e queria mesmo que o embrulho fosse feito, lá fui dizendo que em todo lado há gente simpática e antipática, seja no Porto, em Lisboa ou até na minha terra, no Alentejo.
E diz logo de seguida a lojista:
- Ah, mas no Alentejo as pessoas são como aqui, são fantásticas. Em Lisboa é que não.
A guerra norte-sul é então, afinal uma guerra norte-Lisboa.
Ao regressar ao carro, ouço as notícias e um dos candidatos presidenciais, de viagem pela Beira Interior, faz uma dissertação sobre as vantagens da regionalização, defendendo que só poderá existir desenvolvimento do interior se avançarmos para uma estrutura intermédia supra-municipal e infra-poder central.
No mesmo dia, quase à mesma hora, duas “ensaboadelas” sobre regionalização e regionalismo.
Há alguns anos atrás ao referir a um colega do norte da Europa que em Portugal existia uma rivalidade entre o norte e o sul, ele riu-se e respondeu-me:
- Isso e uma loucura. Vocês são todos sul.
É a perspectiva de quem nos vê de fora. Somos um pequeníssimo país (em território, claro), ao sul da velha Europa.
Mas a minha perspectiva, de dentro, é que de facto somos um pequeno país em termos de dimensão territorial, mas um grandíssimo país pela história, pela cultura, pela gente, e claro, pela diversidade. Num rectângulo de terra de 600 por 200 km, tão pequeno portanto à escala planetária, a diversidade é de facto uma das nossas maiores riquezas.
Sou contra a regionalização.
Ela é mais uma das invenções dos políticos, por certo sempre interessados em arranjar mais uns “jobs” para os “boys”.
Quando o dançarino é mau, até o soalho atrapalha a dança. Se nós tivéssemos um poder central competente, por certo não haveria espaço para inventar a regionalização, atribuindo à sua inexistência, o motivo para as carências de desenvolvimento do interior.
Se houvesse regionalização as portagens nas SCUT não iriam para a frente? As auto-estradas do interior continuariam sem portagens? O metro do Mondego não seria suspenso?
É óbvio que mesmo com regionalização tudo seria igual.
E quanto aos regionalismos e às rivalidades entre diferentes zonas e lugares?
Sempre houve e sempre há-de haver. Servem para apimentar as nossas conversas e nos distrairmos. São salutares e são o resultado de um confronto saudável entre diferentes formas de estar na vida.
E já agora só mais um detalhe que não me parece desprezível:
No Porto, antes de entrar na loja, tinha almoçado num restaurante em que o prato do dia era Carne de Porco à Alentejana e o vinho da casa, um bom tinto da região de Reguengos de Monsaraz. A carne estava fantástica e garanto-vos nada inferior à que comemos no Alentejo.
A sobremesa alimentou-me o orgulho de Calipolense pois o restaurante era nas traseiras do Museu Soares dos Reis, numa rua em que se encontram pintados alguns painéis com reproduções das mais conhecidas obras expostas no interior do museu, e lá estava a Senhora de Negro, do meu conterrâneo Henrique Pousão.
Viva Portugal!

1 comentário:

  1. Meu querido amigo, estou de acordo consigo com o facto de sermos um pequeno país mas com grande história. Isso, no entanto, não erradica o nosso bairrismo e as diferentes conotações que esse bairrismo causa, principalmente pela falta de valores humanos que reflictam a solidariedade em vez da inveja. Repare. Na semana passada entrei num café à hora em que a TV dava um jogo de futebol (quase sempre). Da conversa que ouvi, um indivíduo dizia a outro: "Eu não sou portista, sou anti-benfiquista". Esta asserção que poderia ser validada pelo tal bairrismo, esboroa num problema totalmente diferente, a falta de civismo desportivo, neste caso. Na realidade temos diferenças de pontos-de-vista entre nortistas e sulistas, entre vermelhos e azuis e mesmo entre empregados e patrões. Onde entronca tudo isto? Na inveja de que outros possam ser melhores que nós, independentemente do valor que os outros tenham. Lembra-me o Pitum Keil do Amaral, no velhíssimo programa televisivo Cornélia, ter tido uma saída engraçadíssima, dirigindo-se a um comparsa de cena "Você escusa de ter complexo de inferioridade, você é mesmo inferior". Sejamos mais condescendentes, por favor. Um abraço.

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