domingo, 9 de janeiro de 2011

Ser ou parecer

Fazem parte do menu dos noticiários com cada vez maior frequência mas mesmo assim não consigo habituar-me e deixar de ficar chocado com notícias como a que por estes dias envolveu a morte de um conhecido jornalista Português algures num hotel em Nova Iorque, tudo indicando que o responsável pelo homicidio seja um jovem de 21 anos, também Português, candidato a modelo e em busca da fama.
Confesso que não nutria grande apreço pelo trabalho do jornalista em causa pois a minha relação com as revistas ditas de sociedade e a imprensa mais sensacionalista é de bastante distância, praticamente só me cruzo com elas nas salas de espera dos consultórios ou nas bancas onde me acerco para comprar os jornais.
Mas esse facto agora pouco importa e na análise deste caso, centro-me no valor da vida humana, que para mim está e estará sempre muito acima das particularidades do ser de cada um.
Não reconheço por isso legitimidade para em circunstância alguma, se roubar a vida a alguém. Sou inclusive convictamente contra a pena de morte, mesmo nos casos em que a brutalidade dos crimes nos coloca à beira da tentação do “olho por olho, dente por dente”.
Não necessito portanto de conhecer os contornos do crime e dos motivos por detrás dele, para o condenar logo à partida.
Mas por mais que me esforce não consigo também deixar de ligar este tipo de atitudes, estas acções e práticas de desrespeito total pela vida expressas nesta forma leviana de matar, à forma superficial como por vezes a própria vida é encarada, superficialidade demonstrada quando o parecer se sobrepõe ao ser, quando o embrulho ganha mais importância que o conteúdo.
A nobreza do ser perde protagonismo para a aparência, pela qual se busca a notoriedade fácil e imediata, o passaporte para o mundo dos “conhecidos” que alimentam as páginas do cor-de-rosa, por entre ditos, mexericos e uma perturbadora maledicência.
A fama deixou de ser uma inevitabilidade para alguns, pelo mérito e pela excelência do seu ser e do seu desempenho, seja ele de natureza artística, desportiva ou outra, para passar a ser um objectivo em si mesmo.
Procura-se ser famoso a qualquer preço, chegando por vezes à situação ridícula que presenciei há não muito tempo quando uma criatura muito conhecida, mas não conhecida por nada de relevante, respondeu ao ser questionada sobre os motivos da sua fama: “tenho muitos amigos nas revistas”.
Só esta procura incessante da fama justifica também as figuras ridículas e desprestigiantes para qualquer um, a que diariamente assistimos em longos programas de televisão, onde por dinheiro ou pelos cinco minutos de exposição mediática, a dignidade passa muito para além do limite inferior do aceitável.
Não pretendo ser juiz ou moralista, e muito menos arranjar desculpas e justificações para actos brutais como este, mas não posso deixar de pensar que se voltássemos novamente à essência do ser, se apagássemos as luzes que põem na ribalta o glamour apenas da aparência e olhássemos mais para dentro do ser pessoa, talvez a vida voltasse a ter para todos, o valor incalculável que de facto tem.

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